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A evolução em espécie

postado 02/08/2011 13:16:33 - 2.107 acessos

O mundo vem experimentando uma série de mudanças em sua estrutura sócio-econômica; os mercados, as instituições e as políticas, isso quando não consideramos as próprias pessoas, já não são os mesmos e presenciam um novo momento, onde a tecnologia da informação e a interação entre os diversos mercados são protagonistas de um cenário globalizado em que bem e mal, certo e errado, verdade e mentira, já não trabalham tão bem quanto a oferta e a procura. Nesse contexto encontramos inserido o Brasil, com pouco mais de 500 anos e já com a grande responsabilidade de sobreviver no mundo lá fora.

O nosso planeta possui uma infinidade de riquezas, que nem sempre são igualmente divididas pelo número de territórios, muitas vezes determinados através de guerras e tratados, durante a história da humanidade; essas riquezas, antes encaradas como exclusividade soberana de uma nação, agora são matéria de comércio entre as grandes ou nem tão grandes potências do mundo e os demais. Esquecendo por um momento as nações que abrem mão da soberania que existe em possuir uma moeda própria, a maior representação da riqueza ou da capacidade de produzi-la em um país é a sua moeda. Pode-se dizer que hoje o mundo é um grande mercado, dividido em seções menores, os países, que dispõe a quem interessar os seus produtos; no entanto, para que o grande mercado global funcione é necessário um padrão monetário para as transações no mesmo. O que poderia intermediar essa transação? A moeda mundial, o dólar, representando uma economia sólida aos olhos do mundo, os Estados Unidos, capaz de “segurar o tranco”; isso levando em consideração que esse padrão monetário foi instituído no pós-guerra, pelos aliados (com exceção da Rússia). Foi justamente aí que o primeiro passo para abertura econômica foi dado. Uma moeda, uma lei.

Já a informatização dos sistemas contribui para o aumento na eficácia das operações. Através da tecnologia da informação (TI) o mundo conseguiu se ver globalizado tanto da forma conceitual, quanto da física. A TI fez com que a burocracia desse lugar à agilidade em diversos sistemas, entre eles o comercial, o industrial, o financeiro, o de processamento, o de comunicação, o de transporte, o jurídico e o previdenciário, isso sem falar da segurança e assistência à saúde. A abertura dos mercados acompanhou a evolução tecnológica, pois esta facilitou a interação entre os agentes econômicos de diversos países, o que possibilitou a entrada, mesmo que com efeito atenuante, das grandes corporações em países menos desenvolvidos ou ricos em recursos. A presença de tais corporações, aliada a entrada do capital estrangeiro em um determinado país faz com que este tenha que se modernizar e se adaptar ao novo funcionamento do mercado; isso aumenta a competitividade entre as empresas nacionais, que têm que aumentar a qualidade e segmentação dos produtos e serviços, para se manterem vivas neste novo ambiente, uma vez que o momento exige uma preocupação não só com o concorrente nacional simplesmente, mas também com a presença dos concorrentes estrangeiros e a influência exercida por estes sobre a forma de a concorrência existente atuar no mercado.

Através do padrão monetário, os países começaram a competir entre si por um espaço usando um só referencial, o seu poder econômico em relação ao poder maior, o dos Estados Unidos da América. Sendo assim, foi necessária a instituição da taxa de câmbio. Muitas vezes a base monetária de um país (a moeda em circulação) não acompanha a sua real riqueza; sendo esta base menor que a riqueza total do país, eis que há a maior valorização da moeda, segue-se o caminho inverso no caso contrário. Tais efeitos de valorização/desvalorização são conhecidos como deflação ou inflação, respectivamente, e podem ocorrer na comparação entre diferentes economias, em que pode haver desvalorização ou valorização de tal moeda frente a outra. Então, para fazer o câmbio entre diferentes moedas, de diferentes nações, durante as transações, calculava-se o seu valor em relação ao dólar que, por sua vez, tinha valor calculado em relação à moeda final. Nesse ponto, até a década de 90, o Brasil era por demais desinteressante, devido ao crescente ciclo inflacionário que se estabeleceu a partir do governo JK, se estendeu pela ditadura e conseguiu chegar ao governo Collor. A inflação chegou a 1.200% ao ano, quando foi alcunhada de hiperinflação, e engolia os salários, a indústria e o comércio. O respeito que uma moeda tem no estrangeiro é proporcional ao interesse que os investidores têm no país por detrás dela; sendo assim, a economia brasileira não era confiável para os investidores por ser instável, como sua moeda. Isso sem falar da comodidade instaurada no sistema financeiro, até então caduco, austero e distante das reais necessidades da população.

Durante o governo Itamar Franco, em que Fernando Henrique Cardoso foi Ministro da Fazenda, o Brasil se viu livre da hiperinflação e finalmente pôde ser visto como confiável, tornando-se atrativo e competitivo aos olhos do mercado mundial. Isso se deu graças à instituição do mais eficiente plano econômico já visto pelo país, o Plano Real. Tal plano fixava um novo padrão monetário para o país, a partir de um cálculo que equiparava quantidade de moeda em circulação na época a uma base monetária saudável para a economia; desse cálculo originou-se a URV (unidade real de valor) e, posteriormente, o real. Outras medidas de preservação econômica estabelecidas pelo Banco Central (BACEN) acompanharam a instituição do real como nova moeda; uma delas, criação taxa básica de juros, conhecida como SELIC e até hoje utilizada pela autarquia. O BACEN, através da SELIC, regula a oferta monetária e, com isso, o valor do meio circulante, usando da especulação do mercado financeiro como um todo, principalmente das instituições bancárias.

Tantas mudanças nada mais fizeram que modernizar os métodos caducos e já ineficientes de posicionamento e atuação dos mercados. O Brasil, assim como o mundo, começou a enxergar as coisas de forma diferente e, mal tendo o feito, já sente a necessidade de novos pontos de vista, novas mudanças, como apontam os resultados da crise econômica de 2008. Muito surpreendeu ao mundo ver como a economia brasileira reagiu a crise: os juros altos, tão criticados pelos economistas, foram os salvadores das indústrias; o compulsório, encarado como obstáculo para os grandes banqueiros, do crédito; as reservas internacionais, que “travavam a economia”, das bolsas de valores. Muito surpreende também a fragilidade das grandes potências em relação à especulação do dólar e de seus derivados. Com isso pode ser que tenhamos o prelúdio do que pode ser um rumo a ser tomado pela economia global, hoje una e igualmente sensível às oscilações do dólar. Talvez seja tempo de mudar, talvez não. Nem verdade, nem mentira; oferta e procura, esta é a epígrafe.
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