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Contábil

Contabilidade da Propina: Como assim?!

Usualmente vemos a mídia utilizar de termos como "Contabilidade do tráfico", "bicho" e agora "da propina", acontece que este tipo de expressão deprecia a profissão e a classe contábil, mas as pessoas parecem que não enxergam!

09/06/2016 11:07:38

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Logo de início é bom deixar avisado que não é a intenção deste artigo promover qualquer tipo de corporativismo em relação a profissionais contábeis que, efetivamente, venham a se envolver em qualquer tipo de atividade criminosa, mas sim defender a aplicação do termo contabilidade de forma mais adequada pelos grandes meios de comunicação.

Não é coisa nova sermos obrigados a ver e ouvir nos telejornais e em jornais impressos a associação da profissão contábil a diversas práticas criminosas, por vezes dando conta de maus profissionais que realmente cometeram crimes valendo-se da profissão, nestes casos, nada mais justo do que informar à sociedade do ocorrido e cobrar punições, aliás, esta é a função social do jornal, porém, em outras vezes, são uma completa aberração e ofensa gratuita à classe e à própria ciência contábil(!), sendo até mesmo um desserviço à sociedade, na medida que acaba transmitindo uma ideia errada dos fatos e, portanto, comunicando mal.

Um grande exemplo deste último caso são as absurdas expressões cunhadas pela grande mídia como “contabilidade do tráfico”, “contabilidade do bicho” e a novíssima “contabilidade da propina”, sendo a primeira para fazer inferência ao tráfico de drogas, a segundo ao jogo do bicho e a terceira sobre aos recentes escândalos de corrupção.

Muito embora possamos entender que o termo contabilidade possa ser utilizado – e é – com a conotação (ou sinônimo) de “conta” ou “cálculo”, é inegável que a utilização da palavra contabilidade fatalmente leva o público à relacionar a notícia publicada à profissão contábil e ou à profissionais da classe, o que não é uma verdade.

Na maioria das vezes a dita “contabilidade do tráfico” ou “do bicho” ou ainda “da propina” não passam de meras anotações de valores recebidos e pagos pela organização criminosa, o que está longe de ser contabilidade propriamente dita, e embora possa ser utilizada a palavra “contabilidade” para este tipo de material, fatalmente acaba por relacionar a profissão e ou profissionais contábeis a estas atividades, denegrindo assim a imagem da classe e da profissão.

Ora, este material ao qual a imprensa se refere, se trata (ou se aproxima) muito mais de meras “anotações financeiras” ou “controle financeiro” do que propriamente contabilidade. Além disso, estes termos não fariam inferência a uma categoria profissional específica; são mais apropriados por refletirem melhor os fatos; além de serem também de fácil compreensão. Portanto, comunicaria melhor e de forma mais fidedigna ao grande público o que de fato foi encontrado, o que de fato acontece.

Afinal, o termo “contabilidade do tráfico” pode dar a entender a algumas pessoas a contratação de pessoal qualificado e uma estrutura maior do que, de fato, como se vê em diversas reportagens, um mero caderno com anotações de “quanto entrou” e “quanto saiu”, portanto, informa e cria uma imagem no público diferente da imagem real, prejudicando inclusive a própria qualidade da informação à sociedade.

Some-se a isto o fato de a profissão contar com mais de 500 mil profissionais devidamente registrados e ser a 4ª mais escolhida entre os universitários, formando assim uma grande parcela da opinião pública e da própria audiência destes meios de comunicação que, quer pela fidedignidade das informações, quer pelo próprio respeito à sua audiência.

A questão então passa a ser como estabelecer este diálogo com os meios de comunicação, não para confrontá-los ou criar qualquer tipo de animosidade, mas para tentar estabelecer um denominador comum para que possamos conciliar a melhor qualidade possível da informação a ser divulgada ao público, com o respeito e o resguardo à profissão e a classe contábil.

Obviamente a forma mais lógica de estabelecer tal diálogo seria através dos representantes da classe, seja através de Conselhos, Sindicatos, Associações e tantas outras entidades existentes no meio contábil, mas que, no entanto, parecem não se importar com tais colocações, ou não se atentam, ou ainda, se omitem.

Vale dizer que não se vê expressões análogas à outras profissões, acaso alguém vê falar em “advogado do tráfico” ou “advogado do bicho”? Mesmo com os escândalos de corrupção envolvendo predominantemente empresas de engenharia, em algum momento ouviu-se falar em alguma associação da engenharia com propina? Médicos, administradores, enfim...

Já passou da hora dos Conselhos, Sindicatos e demais órgãos se unirem para mostrar a sua força e dialogar com os meios de comunicação a fim de encontrar formas alternativas de noticiarem os fatos que não atentem – nem indiretamente – contra a profissão e o profissional de contabilidade. De tempos em tempos fazem-se eleições, levantam-se bandeiras sobre valorização e ficamos todos esperando ações mais efetivas e práticas que visem a valorização profissional, mas a triste realidade é que continuamos submetidos à notícias como estas e a desmandos constrangedores dos órgãos estatais.

Por fim, se os órgãos não se atentam a isto, restam aos bravos contadores que labutam diariamente nas suas próprias obrigações, sempre que possível, bradarem contra este tipo de associação, ainda que involuntária, da nossa tão amada contabilidade com qualquer prática criminosa ou ilegal. Atualmente é muito simples fazer contato com repórteres, colunistas e redatores, geralmente seus emails estão disponíveis na própria assinatura da matéria, e sempre existem meios de comunicação viáveis, quem sabe uma mera correspondência sugerindo um novo enfoque ou terminologia não seja o suficiente, ainda que de pouco em pouco, mudar este tipo de emprego do termo “contabilidade”?

Bom, eu não vou esperar mais pelos Conselhos e Sindicatos da vida, que tal fazermos nós mesmos?

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