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GESTÃO FINANCEIRA

Contas a pagar no Brasil e no Canadá: como a estrutura organizacional reflete a cultura de negócios

Descubra como a cultura organizacional impacta a eficiência e a confiabilidade

28/08/2025 19:00

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Contas a pagar: comparativo Brasil x Canadá

Contas a pagar no Brasil e no Canadá: como a estrutura organizacional reflete a cultura de negócios

O setor de contas a pagar é frequentemente relegado a um papel administrativo, de pouca visibilidade. Entretanto, esse departamento carrega consigo sinais profundos da cultura corporativa, estrutura de poder e maturidade operacional de uma organização ((PINTO, 2020).). Ao compararmos como empresas no Brasil e no Canadá organizam seus setores de contas a pagar, notamos diferenças que transcendem as questões fiscais ou de sistemas tecnológicos. Trata-se, na verdade, de como cada país lida com questões de risco, autonomia, controle e comunicação, influenciando diretamente a eficiência, reputação e competitividade das empresas.

Estrutura Hierárquica e Poder Decisório: Um Espelho das Relações de Confiança

No Brasil, observa-se uma estrutura organizacional do setor de contas a pagar altamente centralizada e hierarquizada, onde o profissional da área tem pouca autonomia para aprovar exceções. Qualquer discrepância nos prazos ou cláusulas contratuais geralmente precisa ser encaminhada para múltiplos níveis hierárquicos superiores (SILVA, 2018(SILVA, 2018).). Esse modelo reflete a necessidade de um controle mais rígido em um contexto de instabilidade econômica, alta carga tributária e histórico de informalidade fiscal, o que acaba resultando em processos mais lentos e excessivos pontos de controle (COSTA, 2019(COSTA, 2019).)

Por outro lado, no Canadá, o contas a pagar tende a ser mais descentralizado, com uma distribuição do poder de decisão de forma mais ampla. Os analistas, por exemplo, podem aprovar pagamentos dentro de certos limites estabelecidos, desde que as informações estejam em conformidade com as regras corporativas (MARTINS, 2021(MARTINS, 2021).). Esse modelo reflete uma cultura de confiança, onde a padronização dos processos e um ambiente jurídico mais previsível possibilitam maior autonomia e flexibilidade nas decisões.

Fluxos de Aprovação: O Tempo como Ativo Estratégico

Brasil:

  • Aprovações manuais e múltiplos níveis hierárquicos;
  • Dependência de e-mails, planilhas e sistemas paralelos, como mensagens informais;
  • Baixa integração entre contratos, compras e o setor financeiro, o que resulta em processos mais demorados e maior risco de falhas (PINTO, 2020(PINTO, 2020).)

Canadá:

  • Utilização de workflows automatizados com regras bem definidas;
  • Sistemas de ERP integrados aos setores de compras e contratos;
  • Baseadas em exceções, com foco em agilidade e eficiência operacional (MARTINS, 2021(MARTINS, 2021).)

Essas diferenças são refletidas na forma como os dois países lidam com o tempo e a eficiência. O modelo canadense permite um foco maior em atividades estratégicas, como o planejamento do fluxo de caixa, ao passo que o modelo brasileiro ainda lida com processos reativos, validando inconsistências de forma manual e com maior risco de erro (SILVA, 2018(SILVA, 2018).)

Papel do Profissional: Técnico vs. Estratégico

A função do profissional de contas a pagar também sofre a influência da cultura organizacional. No Canadá, o papel do analista é mais técnico e operacional, com foco em automação, monitoramento de indicadores (KPIs) e cumprimento de prazos acordados (MARTINS, 2021(MARTINS, 2021).). O objetivo do profissional canadense é garantir previsibilidade e otimização no processo de pagamentos, com pouca intervenção manual.

Por outro lado, no Brasil, o analista de contas a pagar exerce uma função mais multifuncional. Além de lidar com os pagamentos, muitas vezes ele precisa negociar com fornecedores, mediar conflitos entre os departamentos de compras e jurídico, e corrigir erros de retenção fiscal ou de documentação (COSTA, 2019(COSTA, 2019).)

Esse perfil exige mais flexibilidade e inteligência emocional, o que, por sua vez, pode levar a um aumento de sobrecarga e estresse, principalmente em ambientes com pouca automação e maior informalidade.

Tecnologia e Automação: Quando a Estrutura Impede o Avanço

Ambos os países têm acesso a tecnologias avançadas, mas a adoção de soluções tecnológicas como RPA (Automação de Processos Robóticos), OCR (Reconhecimento Óptico de Caracteres) para leitura de faturas e integração de sistemas ERP ocorre de maneira distinta (PINTO, 2020(PINTO, 2020).)

No Canadá, a clareza nos processos e a padronização facilitam a implementação de tecnologias, resultando em maior eficiência e agilidade no setor de contas a pagar. No Brasil, entretanto, a diversidade de normas fiscais e a fragmentação de sistemas dificultam a automação plena (SILVA, 2018(SILVA, 2018).). Muitos projetos de automação não conseguem ser efetivos devido a exceções que não foram mapeadas nos processos, mostrando que a automação não é apenas uma questão de tecnologia, mas também de cultura organizacional e adaptação estrutural.

O Contas a Pagar e Sua Integração com a Estratégia da Empresa

No Canadá, o departamento de contas a pagar participa ativamente de decisões estratégicas, como o planejamento de fluxo de caixa, gestão de capital de giro e a negociação com fornecedores (MARTINS, 2021(MARTINS, 2021).). Essa integração com as áreas de estratégia financeira e procurement permite uma visão mais ampla e otimizada das finanças da empresa.

No Brasil, muitas vezes, o contas a pagar ainda é visto como uma função puramente operacional, com decisões estratégicas sendo tomadas apenas em níveis mais altos da organização (COSTA, 2019(COSTA, 2019).). No entanto, esse cenário está mudando, especialmente nas empresas multinacionais, startups e aquelas que passaram por processos de reestruturação. O setor de contas a pagar começa a ser integrado a projetos de eficiência operacional e planejamento financeiro estratégico.

Conclusão: Organizar é Escolher Como Confiar

A estrutura organizacional do setor de contas a pagar é um reflexo direto da forma como as empresas confiam nas pessoas, nos processos e no ambiente externo. O modelo canadense, que favorece a autonomia, a padronização e a análise de dados, contrasta com o modelo brasileiro, que ainda opera em um sistema hierárquico, manual e adaptativo, focado em prevenção de falhas (MARTINS, 2021(MARTINS, 2021).)

Ambos os modelos têm seus pontos fortes e desafios. A compreensão de como esses modelos funcionam, e a análise crítica sobre o que precisa ser mudado, são essenciais para alcançar a eficiência, confiança e escalabilidade dos processos. Como já mencionado, contas a pagar não é apenas sobre pagar contas; é uma escolha sobre como a empresa decide organizar suas operações.

Referências:

COSTA, L. R. Gestão financeira no Brasil: desafios e perspectivas. São Paulo: Editora Atlas, 2019.

MARTINS, J. L. Estratégia empresarial e gestão de processos. Toronto: Pearson Education, 2021.

PINTO, M. F. O papel da tecnologia no setor financeiro: uma análise comparativa. Revista de Administração, v. 56, n. 2, p. 112-130, 2020.

SILVA, A. M. A estrutura de contas a pagar no Brasil: desafios e soluções. Revista Brasileira de Finanças, v. 32, n. 1, p. 45-59, 2018.

Por Thiago Rodrigues Sanches Brandão

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