A Recuperação Judicial (RJ) tornou-se um dos instrumentos mais relevantes para empresas e produtores rurais em situação de crise econômica. Embora seja fundamental para preservar atividades, empregos e cadeias produtivas, o mecanismo costuma gerar forte resistência por parte das instituições financeiras. Para os bancos, a RJ representa risco, perda de controle e impactos diretos nos seus resultados. Entender essa relação é essencial para profissionais contábeis, gestores e consultores que atuam em ambientes de alto endividamento e volatilidade.
O primeiro ponto de atrito é a suspensão imediata das cobranças após o protocolo da RJ. Com o chamado stay period, execuções, bloqueios e penhoras são paralisados, retirando do banco a capacidade de ação de curto prazo. O que antes era uma operação ativa de recuperação de crédito passa a depender de decisões judiciais e do cronograma do processo, gerando incerteza e queda previsível na taxa de recuperação.
Outro fator crítico é a amplitude das dívidas que podem entrar no processo. No caso do agronegócio, por exemplo, praticamente todas as modalidades, custeios, investimento, operações com máquinas, CPRs, repactuações antigas e até dívidas com cooperativas — podem ser incluídas. Isso aumenta substancialmente o risco financeiro para as instituições, que passam a conviver com carteiras travadas e sem perspectiva de liquidação rápida.
A rentabilidade também é afetada. Em uma RJ, o devedor pode propor redução de juros, descontos, alongamentos extremos e períodos de carência. Embora os credores participem das negociações, a dinâmica é desequilibrada: a alternativa ao acordo é a falência, que costuma gerar recuperação ainda menor. Para o banco, isso significa receber menos, em prazos mais longos e com menor capacidade de negociação.
As garantias representam outro ponto sensível. Imóveis, máquinas agrícolas, safras, rebanhos ou outros bens dados em garantia não podem ser executados de imediato. Um colateral que não pode ser acionado perde força econômica, obrigando o banco a reavaliar riscos e provisionar perdas maiores. Em setores como o agrícola, onde garantias são altamente vinculadas a ciclos produtivos, essa fragilidade é ainda mais evidente.
Por fim, há impactos sistêmicos e contábeis. A entrada de clientes relevantes em RJ obriga bancos a provisionarem valores significativos, reclassificar carteiras e ajustar resultados trimestrais. Isso afeta indicadores de risco, solvência e até a percepção do mercado sobre a instituição. Em períodos de safra fraca ou recessão econômica, um volume alto de recuperações judiciais pode pressionar todo o sistema financeiro, elevando juros e reduzindo crédito disponível.
Em síntese, os bancos “odeiam” a Recuperação Judicial não pelo mecanismo em si, mas pela perda de previsibilidade, liquidez e capacidade de execução das garantias. Para empresas e produtores rurais, porém, a RJ é uma ferramenta legítima de reorganização e sobrevivência. Cabe ao profissional contábil compreender ambos os lados, orientar decisões estratégicas e atuar como peça-chave na construção de soluções sustentáveis entre devedores e credores.













