A invasão da Venezuela embaralhou de vez o tabuleiro político da América do Sul. Ainda que o impacto econômico direto sobre o Brasil seja limitado — o país vizinho já não ocupa posição relevante no comércio exterior brasileiro —, o episódio abre uma série de questões geopolíticas que não podem ser subestimadas. A região, por muito tempo percebida como distante das grandes tensões globais, volta a se afirmar como um espaço de disputa entre potências por influência estratégica.
China e Rússia, por sua vez, adotaram uma postura calculada ao evitar o alarde enquanto o conflito permanecer circunscrito a países considerados periféricos no sistema internacional. Essa atitude não reflete desinteresse, mas pragmatismo. A China, em especial, investiu ao longo dos últimos anos na construção de relações consistentes com governos sul-americanos receptivos à sua presença econômica. Essa teia de afinidades políticas facilita investimentos, amplia canais diplomáticos e assegura acesso a recursos estratégicos.
A grande questão é que essa confiança tem prazo de validade. A política latino-americana é marcada por ciclos rápidos de alternância entre direita e esquerda. Caso governos alinhados com Pequim sejam derrotados nas urnas, a China pode enfrentar um ambiente menos favorável, com países buscando reaproximação com os Estados Unidos. Esse movimento reduziria a sua margem de manobra e alteraria o equilíbrio regional. Por isso, mesmo sob um discurso de neutralidade, os chineses acompanham de perto o humor político do continente.
Para o Brasil, o quadro é particularmente sensível. O País precisa administrar os efeitos diretos da crise venezuelana — como tensões na fronteira e fluxos migratórios —, ao mesmo tempo que tenta preservar a própria autonomia diplomática. A invasão aumenta a pressão por um posicionamento mais claro, seja como mediador, seja como ator regional capaz de conter uma escalada. Tudo isso ocorre em um momento de forte polarização interna. A ascensão de governos mais alinhados com a direita nos países vizinhos tende a endurecer o discurso contra Caracas e, simultaneamente, a reforçar laços com Washington.
Isso pode resultar em mais atritos com as nações que mantêm relações estreitas com China e Rússia, aprofundando a fragmentação regional.
Mesmo com desdobramentos econômicos imediatos restritos, a percepção de instabilidade tende a afetar investimentos, acordos comerciais e decisões estratégicas de empresas internacionais. Em um ambiente mundial cada vez mais sensível a choques geopolíticos, a simples possibilidade de escalada já é suficiente para elevar a incerteza e encarecer o custo das decisões.
A nova ordem mundial que começa a se desenhar após a invasão da Venezuela não se resume a conflitos armados, envolvendo disputas de influência, realinhamentos políticos e uma competição silenciosa entre grandes potências por espaço na América do Sul. Para o Brasil, a resposta passa pelo fortalecimento da diplomacia, pela reconstrução de pontes regionais e pela prevenção de que a crise venezuelana se transforme em um ponto de ruptura continental. Em uma conjuntura internacional cada vez mais tensa, preservar a estabilidade no entorno deixa de ser uma opção e se consolida como uma necessidade primordial.












