Desde que ingressei na faculdade, em 2015, ouvi repetidas vezes que a profissão de contador estaria com os dias contados. Vinda de parentes bem-intencionados, amigos preocupados e até de colegas de outras áreas, a previsão era sempre a mesma: a tecnologia tornaria o contador obsoleto. O conselho também se repetia: “se eu fosse você, trocaria de profissão”. Passados dez anos de atuação na área contábil, a realidade mostrou-se bem diferente. As vagas se multiplicaram, a complexidade aumentou e a demanda por profissionais qualificados nunca foi tão alta. Afinal, se a Contabilidade está mesmo com os dias contados… por que o mercado insiste em provar o contrário?
O público em geral costuma esquecer que a Contabilidade é, antes de tudo, Ciência Contábil. Trata-se de uma ciência em permanente evolução, e não de uma simples técnica mecânica de débito e crédito. Quem exerce a profissão sabe: no dia a dia, lidamos muito mais com dúvidas do que com certezas. Quantos fatos novos surgem sem um procedimento imediato claramente definido? Quantas vezes foiforam necessário nos debruçarmosnos debruçarmos sobre normas, discutir com outros contadores, estudar interpretações e julgamentos técnicos para decidir como determinado fato contábil deveria ser reconhecido nas demonstrações contábeis de uma empresa?
Pois bem. A atividade do contador é extremamente complexa, ainda que o público em geral nem sempre perceba isso. Os CEOs e diretores financeiros, por outro lado, já entenderam há muito tempo. Não é raro ouvir, nos bastidores das empresas, que é difícil encontrar um bom contador — e que esse é um dos cargos mais complicados de se substituir. E por quê? Porque o contador é o profissional responsável por refletir, com fidedignidade, a realidade econômica e financeira de uma entidade. Quando esse retrato é feito de forma inadequada, as consequências são sérias: o profissional pode ser responsabilizado, o mercado pode ser induzido a erro e, em casos mais sensíveis, até o mercado de capitais pode ser afetado.
E mesmo com o advento da tecnologia, da automatização, dos sistemas integrados e da inteligência artificial, o mundo — e as empresas — tornaram-se ainda mais complexos. Robôs não possuem a capacidade de substituir o julgamento profissional de um contador. Ao contrário do discurso alarmista, a tecnologia não veio para eliminar a profissão, mas para reduzir o trabalho mecânico e ampliar o espaço do trabalho intelectual.
Talvez a pergunta correta nunca tenha sido se a Ciência Contábil vai acabar. A pergunta incômoda é outra: estamos formando e mantendo profissionais à altura da complexidade que o mundo exige? Porque, enquanto houver decisões econômicas, riscos, julgamentos e responsabilidade sobre informações que movem mercados, não haverá algoritmo capaz de assumir o lugar do Contador. A Contabilidade não está em extinção — está em seleção natural. E sobreviverão aqueles que compreenderem que a profissão não é sobre lançar números, mas sobre interpretar a realidade.













