As empresas convivem com uma equação ingrata, margens apertadas, complexidade tributária absurda, guerra de preço e um nível de exposição fiscal que parece programado para gerar erros.
No meio disso, tem uma oportunidade que segue sendo ignorada por boa parte das operações: valores pagos a mais que ainda estão parados na conta errada. E não é por falta de lei, é por falta de leitura técnica.
A recuperação tributária não é uma opção, é uma questão de sobrevivência operacional.
A dor não está na alíquota, está no detalhe mal lido.
Quando se olha para uma operação, o risco tributário não está no macro. Está no micro.
NCM errado, ST com IVA/MVA inflada, crédito de PIS/Cofins não apropriado, ICMS pago duas vezes em cadeia quebrada. A lista é grande, e tudo isso tem um ponto em comum: dinheiro que poderia voltar para o caixa, mas segue sendo tratado como custo perdido.
A ST virou rotina, e a rotina virou erro.
Pouca gente para pra questionar o óbvio: aquela MVA usada há anos reflete a realidade de preço da operação? Em muitos casos, não. E o que era para ser repasse vira recolhimento indevido.
Não dá mais para aceitar ST como linha incontestável, precisa medir, validar, documentar, e onde tiver excesso, recuperar. Porque a margem não nasce só na venda, a margem nasce quando o custo é corrigido na origem.
Crédito de PIS/Cofins: a pedra que ficou para trás
Energia, frete, serviços, insumos operacionais, se a operação está no lucro real e ainda não revisou a apropriação de crédito nestes pontos, tem dinheiro parado, e não é pouco.
Muitos ainda tratam tudo isso como despesa pura, quando na verdade poderiam estar abatendo carga tributária todo mês. O crédito não entra sozinho, ele precisa ser mapeado, e, principalmente, sustentado.
NCM errado não é só multa, é oportunidade mal aproveitada.
Errou a classificação, pagou tributo errado, só que o impacto vai além da multa. Tem operação recolhendo impostos sem necessidade, tem empresa deixando de aproveitar benefício fiscal, e tem quem nem saiba que está pagando duas vezes pelo mesmo item.
NCM não é só código, é chave fiscal, e, dependendo da revisão, é também chave de recuperação de impostos.
O passado não se corrige sozinho, mas pode bancar o futuro.
A recuperação tributária permite voltar até cinco anos e corrigir tudo que foi pago a mais. E isso, em um setor com volume alto de giro, pode representar um alívio de caixa significativo.
Mas não basta identificar, tem que saber conduzir.
Diagnóstico sem execução não recupera um centavo, o processo exige leitura técnica, estratégia jurídica e controle documental.
A empresa que entra nisso achando que é só protocolar um pedido, vai bater em porta fechada. Precisa de roteiro. Precisa de sustentação, precisa demonstrar que não é tentativa. É direito.
Recuperar é só o começo. O ponto real é não errar de novo.
Mais do que buscar crédito, a recuperação fiscal abre o mapa de onde a operação está falhando, mostra as fragilidades sistêmicas, expõe a falta de controle sobre classificação fiscal, substituição, parametrização tributária.
E quem só corrige o passado, sem revisar processo, vai voltar a pagar errado daqui a seis meses.
A pergunta não é se tem crédito. É porque ainda não foi recuperado.
Se a operação está no varejo ou na distribuição, já tem probabilidade alta de pagamento indevido. Só que o crédito não aparece na planilha, ele aparece quando alguém senta e faz conta séria, quando a leitura do fiscal deixa de ser reativa e vira estratégica.
O que está travando margem pode não ser o mercado, pode ser o imposto que você aceitou pagar sem questionar.













