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A contabilidade como barreira de proteção: lições do caso Banco Master para governança, risco e estabilidade

A importância da informação confiável e da governança para a estabilidade do sistema financeiro.

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Crise Bancária: contabilidade é chave para estabilidade e prevenção

A contabilidade como barreira de proteção: lições do caso Banco Master para governança, risco e estabilidade

Quando uma instituição financeira entra em regime especial e há necessidade de acionamento do garantidor de depósitos, o impacto ultrapassa o banco: afeta poupadores, empresas, credores, reputação do sistema e, muitas vezes, gera uma onda de litígios. Nesse tipo de cenário, a contabilidade não é “mera burocracia”: ela é parte do mecanismo de defesa do mercado, do regulador e do próprio contribuinte contra perdas evitáveis.

O caso Banco Master, com liquidação extrajudicial decretada em novembro de 2025novembro de 2023 e a posterior operacionalização de pagamentos de garantia pelo Fundo Garantidor de Créditos, expõe uma verdade incômoda: crises bancárias raramente começam no “dia do colapso”. Elas se formam quando há deterioração silenciosa de liquidez, capital e qualidade de ativos, e quando a informação disponível ao mercado não reflete, com fidelidade e tempestividade, a substância econômica.

O que o caso sinaliza: risco não aparece do nada

O ato público que formaliza a liquidação e define termo legaldefine o termo legal dá o enquadramento institucional do evento. Na sequência, o Fundo Garantidor de Créditos comunicou números de grandeza social relevante (quantidade de credores e volume total de garantias), além de alertas sobre golpes e canais oficiais. A imprensa econômica internacional também registrou preocupações típicas de episódios dessa natureza: tensões de liquidez, estrutura de funding, descasamentos e debates sobre calibragem regulatória.

Esses elementos, quando vistos em conjunto, apontam para um mesmo núcleo: qualidade da informação. Em bancos, informação de baixa qualidade não é um problema apenas “contábil”. É um problema de governança, mercado e estabilidade.

Por que a contabilidade é central em instituições financeiras

Bancos vivem de confiança, e confiança depende de informação comparável, verificável e compreensível. O ponto técnico é simples: o negócio bancário é, em essência, um conjunto de contratos e riscos futuros (crédito, mercado, liquidez). Logo, a contabilidade não “fotografa” apenas o passado; ela precisa traduzir, com prudência e critérios consistentes, o risco embutido nos ativos e obrigações.

A IFRS Foundation, ao definir o objetivo do relatório financeiro, reforça que a utilidade da informação está ligada à tomada de decisão por investidores e credores. Em bancos, isso se conecta diretamente à disciplina de mercado e ao custo de funding: quanto maior a opacidade, maior a chance de precificação errada do risco, e, por consequência, maior a chance de correções abruptas.

2.1 O “triângulo” que sustenta a prevenção: registro, evidência e auditoria

Na prática, crises frequentemente revelam um ou mais destes problemas:

Registro sem substância (ou sem lastro verificável)Operações complexas (cessões, recebíveis, instrumentos estruturados) exigem documentação e rastreabilidade. Quando a trilha documental é frágil, cresce o risco de conflito sobre existência, direitos e obrigações.

Mensuração inconsistente com o risco econômicoNão basta reconhecer o ativo: é preciso mensurá-lo de modo coerente com risco, liquidez e recuperabilidade. Em bancos, isso aparece de forma crítica em provisões, marcações a mercado e avaliações internas.

Divulgação insuficiente (ou tecnicamente correta, mas pouco compreensível)Transparência não é despejar nota explicativa; é permitir que o usuário entenda o que é material, quais premissas sustentam números e quais incertezas podem mudar o cenário.

Esse “tripé” é a razão pela qual contabilidade, controles internos e auditoria devem caminhar juntos: a contabilidade produz a informação; os controles garantem integridade; a auditoria testa e reforça credibilidade.

O ponto mais sensível: perda esperada e tempestividade no reconhecimento de risco

O coração das crises de crédito costuma bater em silêncio. Por isso, modelos de perdas esperadas e políticas de provisão com governança robusta têm função preventiva: obrigam a instituição a reconhecer mudanças de risco antes que o problema vire insolvência.

Isso não “elimina” risco bancário. No entanto, reduz o espaço para risco invisível.

Transparência prudencial: quando disclosure vira disciplina de mercado

Há um motivo para o Basel Committee on Banking Supervision tratar o “Pilar 3” como peça de disciplina de mercado: sem disclosuredisclosure adequado, investidores e credores não conseguem diferenciar risco bom de risco ruim. A consequência é conhecida: o mercado precifica mal, e a correção vem de forma abrupta quando fatos emergem (comportamento típico de episódios de corrida e fechamento de funding).

A literatura sobre opacidade bancária reforça essa conexão: mais opacidade tende a aumentar distorções de percepção de risco e reduzir a eficiência do monitoramento externo. Em outras palavras: sem informação boa, nem o mercado nem o regulador conseguem agir cedo.

O que fazer para evitar “casos semelhantes”: um checklist pragmático

A prevenção não depende de uma única norma. Depende de consistência entre estratégia, risco, contabilidade e governança. Um pacote mínimo inclui:

6.1 Para instituições financeiras (gestão e governança)

6.2 Para reguladores e ecossistema de proteção ao depositante/investidor

6.3 Para contadores, auditores e controllerscontrollers (a “linha de frente”)

A melhor síntese é esta: a contabilidade não é um escudo mágico contra insolvência, porque o risco é inerente ao negócio bancário. MasNo entanto, contabilidade de alta qualidade, com controles, auditoria, disclosuredisclosure e governança, impede que o risco cresça no escuro. Ela reduz a chance de surpresas, melhora a ação preventiva, diminui custo social e jurídicodiminui o custo social e jurídico e fortalece a confiança sistêmica.

Em um país com alta complexidade regulatória e forte dependência do crédito bancário, discutir contabilidade como infraestrutura de estabilidade não é academicismo. É agenda de eficiênciaÉ uma agenda de eficiência econômica e proteção social.

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