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ARTIGO DE ECONOMIA

Fim da escala 6x1 pode atingir os mais vulneráveis

Mudança na jornada de trabalho reacende discussão sobre impactos econômicos, pressão inflacionária e desafios operacionais para empresas, especialmente pequenas e médias.

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Fim da escala 6x1 pode afetar vulneráveis

Fim da escala 6x1 pode atingir os mais vulneráveis

A proposta de extinguir a escala 6x1 voltou ao centro do debate trabalhista e, como ocorre sempre que se alteram regras que impactam milhões de empresas e trabalhadores, as reações são intensas. A medida costuma ser apresentada como um avanço social, capaz de assegurar mais descanso e dignidade. No entanto, uma análise econômica mais criteriosa é indispensável para avaliar se os efeitos práticos corresponderão às intenções. Experiências anteriores mostram que mudanças abruptas nas relações de trabalho tendem a produzir efeitos colaterais relevantes — nem sempre antecipados no discurso político.

O primeiro impacto provável seria a expansão da informalidade. O Brasil convive com um mercado laboral estruturalmente frágil, no qual parcela significativa da força de trabalho já atua à margem da formalização. Sempre que o custo de contratação formal aumenta de maneira súbita, parte dos empregadores — sobretudo os de menor porte — têm dificuldade para absorver o novo encargo. Pequenos comércios, restaurantes de bairro, oficinas, salões de beleza e padarias operam com margens reduzidas e baixa capacidade de repasse de custos. Se a nova regra exigir mais dias de descanso e, consequentemente, ampliação do quadro funcional, o aumento da despesa pode tornar-se inviável. Quando a equação financeira não fecha, a informalidade surge como alternativa de sobrevivência, ainda que indesejada.

Outro efeito previsível é a pressão inflacionária. O custo do trabalho não permanece restrito à folha de pagamento, difundindo-se por toda a cadeia produtiva. Segmentos intensivos em mão de obra (como comércio, alimentação e serviços pessoais) tenderiam a reajustar preços para recompor margens. Como essas atividades compõem parcela relevante do consumo essencial das famílias, o peso sobre o orçamento doméstico seria rapidamente percebido. Em cadeias mais longas, o efeito se multiplica: cada etapa adiciona um novo componente de custo, elevando o preço final de bens e serviços. Em um ambiente macroeconômico que já exige vigilância para manter a inflação sob controle, um choque dessa magnitude amplia riscos desnecessários.

O ponto mais sensível, contudo, reside no emprego. Para cumprir uma regra que amplie períodos de descanso sem reduzir a operação, as empresas precisariam contratar mais funcionários. Ocorre que ampliar o quadro com custo unitário mais elevado é um desafio expressivo para pequenas e médias empresas. Diante desse cenário, alternativas como redução de turnos, enxugamento de equipes, aceleração da automação ou, em situações extremas, encerramento das atividades tornam-se plausíveis. Configura-se, assim, um paradoxo. Uma iniciativa concebida para melhorar a qualidade de vida pode resultar em menos postos formais. 

Grandes corporações tendem a absorver parte desse reflexo com mais facilidade. Dispõem de escala, acesso a crédito, tecnologia e maior poder de negociação para repassar preços. Já os pequenos e médios negócios — responsáveis por mais de 70% dos empregos formais no País — operam com fluxo de caixa apertado, dependem da demanda diária e lidam com elevada carga burocrática. Para esse segmento, o fim da escala 6x1 representaria mais do que uma adaptação operacional; poderia significar risco concreto à sustentabilidade do empreendimento. 

A melhoria das condições de trabalho é objetivo legítimo e necessário. Contudo, reformas estruturais exigem planejamento, diálogo com os setores produtivos e mecanismos de transição que reduzam distorções. Boa intenção, isoladamente, não assegura sustentabilidade econômica. Quando os efeitos são subestimados, a conta recai justamente sobre aqueles que se pretende beneficiar: o trabalhador, que pode perder o emprego; o consumidor, que arca com preços mais altos; e o empreendedor de pequeno porte, que luta para manter o negócio ativo. 

O debate sobre a escala 6x1, portanto, precisa ser conduzido com base em dados, evidências empíricas e avaliação de impacto regulatório. Sem essa cautela, uma proposta bem-intencionada corre o risco de produzir efeitos sociais contrários aos seus próprios objetivos. 

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