O Estreito de Ormuz costuma ser chamado de jugular do sistema energético mundial. É um canal com pouco mais de 30 quilômetros de largura na parte mais estreita, que liga o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia. É por ali que passa praticamente toda a produção de petróleo e de gás natural dos gigantes do Oriente Médio. Estamos falando de mais de 20 milhões de barris por dia, algo como um quinto de tudo que o mundo consome, e não existe rota alternativa capaz de substituir Ormuz.
Essa dependência transforma qualquer tensão na região em um gatilho para crises globais. Um bloqueio, ou mesmo a ameaça de instabilidade, já é suficiente para disparar o preço do barril e do gás. Isso funciona como um imposto sobre consumidores e empresas: energia mais cara significa transporte mais caro, produção mais cara, alimentos mais caros. Economias como China, Índia e União Europeia, que importam muito petróleo, sofrem na balança comercial e veem a inflação subir.
Bancos centrais, que muitas vezes já estão tentando reduzir juros, acabam tendo que segurar ou até aumentar as taxas para conter expectativas inflacionárias. O risco é de uma recessão global sincronizada.
No caso da Europa, a dependência do gás do Catar é ainda mais delicada, uma vez que, depois da guerra na Ucrânia, o continente ficou sem os fluxos russos. Qualquer problema em Ormuz mexe diretamente com calefação, indústria e segurança energética.
No Brasil a repercussão tem dois lados. De um, somos grandes produtores de petróleo, então a alta do Brent pode melhorar a balança comercial, aumentar arrecadação de royalties e dar um fôlego às contas públicas. Mas esse ganho pode ser rapidamente engolido pelo efeito inflacionário interno. O País ainda importa derivados, principalmente diesel, e o preço nas bombas acompanha o mercado internacional. Como 65% da carga brasileira é transportada por rodovias, o aumento do diesel encarece o frete e, em cascata, tudo que depende dele — alimentos, insumos industriais, bens de consumo. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) sobe e o poder de compra das famílias cai.
Nesse cenário, o Comitê de Política Monetária (Copom) fica numa posição complicada. A inflação que vem de fora, chamada de inflação de oferta, é difícil de combater. Ao mesmo tempo, a tensão geopolítica costuma fortalecer o dólar, o que pressiona ainda mais o real. Resultado: combustíveis mais caros e câmbio desfavorável. Para evitar que as expectativas de inflação saiam do controle, o Banco Central tende a manter ou baixar menos a taxa Selic. Como sabemos, isso encarece o crédito, desanima o consumo e trava investimentos.
No longo prazo, crises recorrentes em Ormuz podem reduzir o crescimento potencial do Brasil. Esse conceito refere-se à capacidade máxima de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) sem gerar inflação. Se os custos de energia ficam estruturalmente mais altos e os juros permanecem elevados para conter choques externos, o investimento em máquinas, fábricas e infraestrutura perde força. Empresas adiam planos de expansão e o agronegócio, motor do PIB, sofre com fertilizantes mais caros, porque boa parte deles também depende das rotas comerciais do Oriente Médio. Isto é, uma disputa política a milhares de quilômetros pode limitar o desenvolvimento brasileiro.
O Estreito de Ormuz é um verdadeiro termômetro da economia global. Para o Brasil, a instabilidade atual pode significar ganhos pontuais com exportações de petróleo, mas, na prática, traz mais desafios do que benefícios. Inflação pressionada, juros altos e crescimento travado são os efeitos mais prováveis de uma crise prolongada na região. É por isso que acompanhar os desdobramentos em Ormuz não é apenas interesse de analistas internacionais, mas uma necessidade para entender o futuro da economia brasileira.












