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ARTIGO DE ECONOMIA

Como e por que sentiremos o erro do Banco Central dos Estados Unidos

Neste artigo, o especialista reflete sobre os efeitos práticos da política monetária do FED.

24/06/2022 13:30:01

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Como e por que sentiremos o erro do Banco Central dos Estados Unidos Foto: Pedro Mendes

O comitê de política monetária do Federal Reserve System (FED), o Banco Central dos Estados Unidos (EUA), subiu a taxa de juros em 0,75% na última reunião, em junho. O fato chamou a atenção porque foi o maior aumento individual em 40 anos, marcando uma mudança clara de postura da autoridade no combate à inflação. 

Tudo isso não causaria espanto – já que a inflação se aproxima de 9% ao ano em 12 meses, sem indícios de que já esteja no pico –, não fosse a demora do FED para agir. Basta lembrar que o nível da taxa está na faixa de 1,5% e 1,75%, mesmo com a inflação alta há mais de um ano. É interessante, então, analisar os efeitos práticos deste erro de política monetária do banco. 

Aliás, inicialmente, é importante explicitar o erro em questão: durante todo o último ano, o presidente da instituição, Jerome Powell, creditava a inflação a um processo temporário de desarticulação das cadeias produtivas, em decorrência da pandemia da covid-19, e não à alta demanda dos consumidores norte-americanos. 

Isso quer dizer que o FED enxergava a inflação pela diminuição da oferta, e não pelo aumento da demanda, considerando-a temporária – portanto, sem necessidade de uma intervenção. Assim, do ano passado até maio de 2022, não houve um aumento sequer da taxa, mesmo com a inflação batendo em mais de 8% a.a.

O problema é que este era um argumento muito frágil, ainda mais ao observarmos o mercado de trabalho estadunidense, o qual gerou quase 7 milhões de empregos em apenas 12 meses e que, segundo o próprio FED, lida com escassez de mão de obra para suprir todas as vagas em aberto – o desemprego está praticamente em nível mínimo, variando entre 3,6% e 3,9% da população. 

O setor de serviços enfrenta uma grande falta de funcionários, sendo comum estabelecimentos fixarem cartazes informando que não estão cumprindo determinadas funções por falta de pessoal. Para se ter uma ideia do tamanho da demanda, o salário inicial do McDonald’s bateu, pela primeira vez, US$ 20 a hora para iniciantes.

Os sinais de superaquecimento da economia eram evidentes. Além disso, a inflação continuava em trajetória de alta, mas, ainda assim, sem reação alguma do FED. 

Resultado: o norte-americano, de forma inédita nos últimos 30 anos, começou a sentir, no dia a dia, os impactos deste cenário, principalmente os mais pobres – já com reversão do consumo majoritariamente para bens essenciais. Por mais que o mercado de trabalho estivesse aquecido, não dava conta do processo inflacionário.

A falha grave do Banco Central dos Estados Unidos foi duramente sentida pelo país. Atrasada um ano, a autoridade monetária, enfim, interveio, com direito a severas declarações de Powell.  

Em uma delas, a que mais nos interessa, destacou que será difícil evitar um “pouso forçado” da economia. Diante da inflação em alta e enraizada, a dose de juros, agora, terá de ser muito maior. Eis a consequência da resposta tardia.

Desta forma, espera-se, segundo os próprios diretores do FED, que a taxa possa chegar a 3,75%, ainda em 2022, e a 4,25%, em 2023, números altos para o país norte-americano. É possível que haja, então, uma freada brusca da economia estadunidense – interferindo na velocidade de crescimento mundial e impactando o Brasil.

Além disso, o aumento da taxa de juros por lá muito provavelmente vai drenar os dólares das economias emergentes para títulos norte-americanos, forçando a desvalorização das moedas desses países e tornando a tarefa dos bancos centrais ainda mais árdua.

Por fim, a conjuntura estadunidense – somada à subida dos juros aqui, no Brasil – demanda cautela no consumo e nos investimentos. Cuidado é a palavra de ordem para os próximos meses, período no qual os Estados Unidos (e, consequentemente, o mundo todo) devem passar por um período forte de ajuste.

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