É tentador olhar para a transição energética e enxergar uma corrida entre iguais: Europa com suas metas, Estados Unidos com seu dinheiro e a China lá atrás tentando se modernizar. Mas essa imagem é de uns dez anos atrás. Atualmente, o país asiático não está na retaguarda de ninguém, mas na frente e abrindo vantagem.
Em 2024, a China instalou mais capacidades eólica e solar do que todos os outros países do mundo somados. Ao longo do ano, o país chegou perto de 900 gigawatts (GW) de energia solar instalados. Nos primeiros cinco meses de 2025, foram outros 198 GW, sendo 93 só em maio, isto é, um único mês equivaleu a mais que o dobro da capacidade elétrica inteira da Califórnia. Além disso, o país fabrica, atualmente, 80% de todos os painéis solares do planeta, e tem uma capacidade instalada que já ultrapassa 1,2 mil GW por ano, mais do que o mundo inteiro consome.
Efetivamente, essa evolução é visível: em 2024, energias solar e eólica responderam por 18% de toda a eletricidade gerada na China, o dobro de cinco anos antes. Em algum momento de 2025, pela primeira vez, a capacidade de energia limpa do país ultrapassou a de combustíveis fósseis. Uma virada que poucos imaginavam que aconteceria tão rápido.
Com os carros elétricos, a história é parecida. Das 17 milhões de unidades vendidas no mundo inteiro em 2024, 11 milhões foram compradas na China — dois terços do mercado global de um único país. Os Estados Unidos venderam 1,6 milhão; a Europa, 3,2 milhões. Em termos de market share, os elétricos puros chegaram a 27% das vendas de carros na China, contra 8% no país norte-americano e 13% na Europa. Somando os híbridos plug-in, praticamente metade dos carros novos vendidos no ano passado não dependia mais de combustíveis fósseis.
Isso não foi um milagre. O governo chinês injetou US$ 230,9 bilhões em subsídios no setor entre 2009 e 2023, criando uma indústria que, hoje, é forte em todo o mundo. A gigante automotiva BYD vende mais carros elétricos do que qualquer outra montadora do mundo, exportando para Europa, América Latina e Sudeste Asiático. Em 2021, a China tornou-se o maior exportador de automóveis do planeta, desbancando Japão e Estados Unidos — e a força por trás disso foi, em boa parte, o elétrico.
Mas o que realmente separa a China do restante do mundo não é só o produto, mas também o ecossistema: foram registrados 16,7 milhões de pontos de recarga até julho de 2025, segundo dados da Administração Nacional de Energia chinesa (NEA). Esse número representa quase 70% do total mundial. A proporção é de um carregador para menos de seis elétricos na rua. O país vem deixando as nações ocidentais para trás, e a situação piorou quando a administração do presidente norte-americano, Donald Trump, congelou os US$ 5 bilhões que o governo anterior havia reservado para expandir a rede nacional.
Por trás de tudo está muito dinheiro, direcionado com uma clareza que outros governos raramente demonstram. Em 2024, a China investiu US$ 625 bilhões em energia limpa, 31% de tudo que o mundo gastou no setor naquele ano. Em 2025, esse número pode chegar a US$ 1 trilhão, quase quatro vezes o que foi para carvão e petróleo no mesmo período. Também em 2024, já gerava 1,8 bilhão de kilowatts (kW) de energia renovável. Assim, a distribuição por fontes ficou da seguinte forma: 436 milhões de kW de energia hidrelétrica, 521 milhões de kW de energia eólica, 887 milhões de kW de energia solar e 46 milhões de kW de biomassa, o equivalente a 140% da capacidade elétrica dos Estados Unidos e a nove vezes a do Brasil.
Enquanto isso, o país norte-americano vai na direção oposta. A atual administração desmontou boa parte dos incentivos que a Lei de Redução da Inflação havia criado, e as vendas de elétricos estagnaram em aproximadamente 10% das vendas mundiais desde 2023. Em patentes de energia limpa, a distância é ainda mais reveladora — empresas chinesas detêm, atualmente, 75% das patentes globais na área. Em 2000, esse número era de 5%.
A consequência mais ampla desse cenário vai além de qualquer disputa comercial. Como a China produz 78% dos painéis solares e mais de 80% das turbinas eólicas do mundo, está derrubando o custo dessas tecnologias. Esse barateamento está chegando em países que nunca teriam condições de bancar uma transição energética por conta própria. Mais da metade dos países emergentes já superaram os norte-americanos em participação de geração solar. A China atingiu sua meta de renováveis para 2030 em 2024, com seis anos de antecedência, e mira 3,6 terawatts de capacidade até 2035. É inegável a liderança chinesa no setor e, como os Estados Unidos estão andando para trás, essa diferença deve aumentar.












