O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio confirmou que a inflação brasileira segue resistente e distante de uma trajetória confortável de convergência para a meta. Embora o índice cheio tenha desacelerado de 0,67%, em abril, para 0,58%, em maio, o acumulado em 12 meses subiu (de 4,39% para 4,72%), ultrapassando pelo terceiro mês consecutivo o teto da meta contínua, de 4,5%. No ano, a inflação já soma 3,2%, apontando que o processo de desinflação permanece lento, irregular e vulnerável a novos choques, em contraste marcante com maio de 2025, quando o IPCA havia sido de apenas 0,26%.
A maior pressão veio, mais uma vez, do segmento de alimentação e bebidas, que subiu 1,33% e respondeu por quase metade da inflação do mês. Foi o terceiro mês seguido com alta acima de 1%, acumulando 4,81% no ano e registrando a maior taxa para um mês de maio desde 2015. O grupo de habitação também pressionou, com alta de 1,22%, puxada pela energia elétrica residencial (+3,67%), o item de maior influência individual do mês. Em sentido oposto, a atividade de transportes registrou deflação de 0,46%, beneficiado pela queda da gasolina e de outros combustíveis, ainda que parte desse alívio tenha sido compensada pelas altas do gás veicular e das passagens aéreas, que voltaram a subir após forte queda em abril.
Apesar da desaceleração do índice cheio, os componentes mais relevantes para o Banco Central (BC) continuam mostrando resistência. A inflação do setor de Serviços, mais sensível ao mercado de trabalho e menos responsiva à política monetária, avançou 0,40% no mês e acumula 5,97% em 12 meses. Estimativas indicam que a inflação estrutural desse setor, anualizada a partir dos últimos três meses, está em torno de 6,1%, sem sinais de acomodação. O índice de difusão (porcentual de produtos que aumentaram de preço) ficou em 65%, mostrando que a pressão inflacionária é ampla e não restrita a poucos itens. Esses elementos reforçam que os núcleos de inflação ainda não convergem de forma convincente para a meta, mesmo com a desaceleração do índice cheio.
A política fiscal também pesa negativamente. Apesar do arcabouço, o governo central está distante da meta de superávit de R$ 34,3 bilhões para 2026. Projeções do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) apontam para déficit primário de cerca de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, pior que o déficit de 0,43% em 2025. A dívida bruta já supera 80% do PIB e segue em trajetória ascendente. Em ano eleitoral, a resistência a cortes de gastos tende a aumentar, mantendo a demanda agregada aquecida e contaminando expectativas, um ambiente que exige juros mais altos por mais tempo. Esse descompasso entre política fiscal expansionista e política monetária restritiva faz subir o custo do combate à inflação.
O cenário externo também adiciona incerteza. O conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos elevou a tensão no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo global. O petróleo Brent chegou a superar US$ 115 em março. Mesmo com sinais pontuais de normalização, a incerteza permanece elevada. O Comitê de Política Monetária (Copom) já havia citado esse fator como motivo para não antecipar os próximos passos da política monetária. E além da pressão sobre os combustíveis, o conflito elevou custos de fretes e fertilizantes, com efeitos que podem atingir as próximas safras brasileiras e atingir os alimentos, justamente o grupo que mais tem pesado no IPCA.
As expectativas do mercado refletem esse quadro. O boletim Focus de 15 de junho, publicado pelo BC, registrou a 14ª alta consecutiva na projeção do IPCA para 2026, agora em 5,3%. Para 2027, a estimativa subiu para 4,1%. As expectativas para a taxa Selic também foram revisadas para cima: 13,75%, no fim de 2026, e 12%, em 2027.
Com a piora das expectativas e as dúvidas geopolíticas, o processo de flexibilização monetária parece ter sido bloqueado. Em síntese, embora o índice cheio esteja desacelerando, os componentes mais relevantes — serviços, difusão e expectativas — seguem deteriorados. Somados à política fiscal expansionista, ao conflito no Oriente Médio e aos riscos climáticos, esses fatores tornam mais lenta a convergência da inflação para a meta, além de mais custosa e mais incerta.












