Há um indicador capaz de sintetizar a encruzilhada econômica brasileira. Calculado pelo professor Antonio Lanzana, presidente do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP, ele mede a taxa real de formação bruta de capital fixo em relação a Produto Interno Bruto (PIB), descontando a valorização dos bens de capital acima da renda nominal ao longo dos últimos 12 anos. O resultado é de apenas 14,5%. Em termos nominais, a taxa alcança 16,5%, patamar já considerado baixo pelos padrões internacionais. A diferença entre os dois números, porém, revela um problema mais profundo: o Brasil investe cada vez menos em termos reais, embora os indicadores nominais transmitam a falsa impressão de que o esforço de acumulação de capital permaneça razoável.
A fragilidade não é recente, mas o ambiente econômico atual contribui para agravá-la. Investir exige, em qualquer economia, duas condições fundamentais: disponibilidade de poupança para financiar a formação de capital e custo de financiamento compatível com a rentabilidade dos projetos. O Brasil falha de forma recorrente em ambas as frentes. A taxa de poupança doméstica permanece baixa, pressionada por um padrão de consumo sustentado artificialmente por crédito e transferências públicas, além de uma política fiscal expansionista que deverá injetar cerca de R$ 210 bilhões na economia em 2026, justamente quando o mercado de trabalho já opera próximo do pleno emprego. Quando o setor público consome recursos em despesas correntes, reduz a parcela de poupança disponível para financiar investimentos produtivos.
Pelo lado do custo do capital, o cenário tampouco se mostra favorável. Os juros estruturalmente elevados não constituem uma anomalia passageira, mas refletem a percepção de risco associada à deterioração fiscal e à inflação persistentemente acima da meta. Nesse contexto, mesmo empresas financeiramente sólidas têm optado por reduzir investimentos, vender ativos não estratégicos e preservar liquidez. A restrição não decorre da ausência de oportunidades de negócios, mas do encarecimento do capital necessário para viabilizá-las.
A consequência mais contundente — e menos perceptível no curto prazo — é a perda gradual da capacidade produtiva da economia. Países que, hoje, investem pouco, inevitavelmente crescem menos amanhã. Além disso, tornam-se mais suscetíveis à inflação, uma vez que estímulos à demanda encontram uma oferta incapaz de acompanhar o mesmo ritmo de expansão. O Brasil já vivencia essa dinâmica. Embora crédito e gasto público ainda sustentem a atividade econômica no curto prazo, os indicadores dos últimos 12 meses apontam desaceleração para algo próximo de 2% ao ano. Trata-se de um ritmo insuficiente para reduzir a distância em relação a economias comparáveis e incapaz de acomodar as crescentes demandas distributivas da sociedade brasileira.
O horizonte de 2027 torna esse quadro ainda mais delicado. O ciclo eleitoral deste ano cria incentivos para as manutenções dos estímulos fiscais e da expansão econômica de curto prazo, adiando ajustes necessários e elevando despesas futuras. Uma economia que chega ao período pós-eleitoral com famílias altamente endividadas, margens empresariais comprimidas e poupança pública negativa terá espaço reduzido para sustentar uma retomada consistente do investimento privado. O risco não é o de uma crise abrupta, mas de algo potencialmente mais nocivo — uma combinação prolongada de crescimento medíocre e inflação persistente. E este é o cenário mais difícil de reverter justamente porque avança de forma silenciosa, sem produzir sinais imediatos de ruptura.
Superar essa armadilha exigirá uma agenda que a política econômica brasileira tem evitado encarar de maneira consistente. Isso passa por uma consolidação fiscal crível, capaz de abrir espaço para uma trajetória sustentável de queda dos juros; por um ambiente regulatório estável e juridicamente seguro, que reduza o prêmio de risco associado a investimentos de longo prazo; e por reformas voltadas para o aumento da produtividade, elevando o retorno do capital independentemente das condições do ciclo econômico. Nenhum desses elementos parece ocupar o centro da agenda no horizonte imediato. Enquanto isso, o Brasil continua privilegiando o consumo presente em detrimento da acumulação de riqueza futura. Como ocorre em processos dessa natureza, a conta será paga mais adiante — e, sobretudo, por aqueles que ainda não participam das decisões tomadas hoje.












