O índice que mede a inflação ao consumidor (CPI) dos EUA surpreendeu positivamente em junho, mas está longe de resolver o principal impasse da economia americana. O indicador acumulou alta de 3,5% em 12 meses, abaixo da expectativa de 3,8% do mercado e em forte desaceleração em relação aos 4,2% registrados em maio — o recuo mais expressivo dos últimos anos. Grande parte desse movimento decorre da queda superior a 20% no preço do petróleo após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, anunciado em 17 de junho, que levou os preços da gasolina de volta aos níveis observados antes do conflito.
O alívio, porém, tende a ser temporário. Desde 8 de julho, os confrontos entre os dois países foram retomados, impulsionando novamente as cotações do petróleo e elevando a probabilidade de uma recomposição da inflação na leitura de julho, que será divulgada em agosto.
É nesse contexto que Kevin Warsh faz a sua primeira prestação de contas ao Congresso norte-americano na condição de presidente do Federal Reserve (FED). A prioridade declarada permanece a convergência da inflação para a meta de 2%, medida pelo CPI. Apesar da surpresa favorável no dado mais recente, a avaliação predominante entre os analistas é de que o núcleo da inflação continua operando acima do objetivo do banco central. Soma-se a isso a renovação das tensões geopolíticas, que tende a pressionar os preços da energia e dificultar o processo de desinflação nos próximos meses.
Esse ambiente de maior cautela por parte do FED continua sustentando a força do dólar frente às moedas emergentes, e o real permanece sujeito a essa dinâmica. Nas últimas semanas, a taxa de câmbio oscilou entre R$ 5,05 e R$ 5,22, apoiada sobretudo pelo elevado diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, com a Selic em 14,25%, fator que continua atraindo fluxo estrangeiro de curto prazo. Trata-se, contudo, de um apoio frágil.
Embora a inflação brasileira tenha desacelerado para 4,64% em 12 meses até junho, o índice ainda permanece acima do teto da meta. Ao mesmo tempo, os resultados fiscais de maio trouxeram nova deterioração, com piora da dívida bruta e do déficit primário, reforçando a percepção de fragilidade das contas públicas, pressionando os prêmios de risco e limitando o potencial de valorização do real.
A combinação de um FED ainda vigilante com um quadro fiscal doméstico cercado de incertezas tende a manter os juros reais elevados em ambos os países. Nos Estados Unidos, a instabilidade em torno do governo Trump — marcada pela pressão sobre a independência do FED, pelas disputas comerciais e pela escalada das tensões com o Irã — amplia o prêmio de risco exigido pelos investidores e contamina o conjunto dos ativos emergentes. O resultado é um ambiente financeiro global mais restritivo, caracterizado por custo de capital mais elevado e mais seletividade na alocação de recursos, independentemente de um dado isoladamente favorável de inflação.
Em meio ao arrefecimento dos investimentos em diversos setores, a Inteligência Artificial (IA) permanece como a principal exceção. As quatro maiores hyperscalers(empresas que oferecem infraestrutura e serviços de nuvem em larga escala) — Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta — deverão investir, aproximadamente, US$ 725 bilhões em infraestrutura da tecnologia em 2026, montante em torno de 77% superior ao registrado no ano anterior e muito acima dos cerca de US$ 400 bilhões desembolsados em 2025.
Esse volume extraordinário de investimentos está promovendo uma mudança estrutural na alocação global de capital, deslocando recursos de setores tradicionais para segmentos ligados a semicondutores, datacenters e infraestrutura digital. O aspecto positivo é que essa onda de investimentos se consolidou como o principal vetor de crescimento dos lucros corporativos nos Estados Unidos: as sete maiores empresas de tecnologia deverão responder por mais de um quarto dos resultados do S&P 500. O contraponto é o aumento da concentração. Instituições como o Goldman Sachs já observam que a narrativa homogênea das Magnificent Seven começa a perder força, à medida que o desempenho entre essas companhias se torna cada vez mais heterogêneo.
Em síntese, o resultado da inflação americana mostra que episódios pontuais de desaceleração não alteram o quadro estrutural da economia do planeta. A perspectiva continua sendo de um dólar fortalecido, juros reais elevados e um ambiente geopolítico marcado por mais incerteza.
Ao mesmo tempo, o crescimento mundial passa a depender de forma crescente de um único vetor de expansão: a IA. Para o Brasil, o desafio permanece duplo — administrar um custo de capital mais elevado em um quadro externo adverso e, simultaneamente, evitar ficar à margem da profunda reorganização produtiva que a tecnologia já vem impondo à economia mundial e aos preços relativos dos diferentes setores.












