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CONTADOR ESTRATÉGICO

O diferencial do contador não será produzir respostas. Será fazer as perguntas que evitam decisões ruins

Entenda o novo papel do profissional contábil na tomada de decisões estratégicas

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Contador Estratégico: O Poder das Perguntas na Contabilidade

O diferencial do contador não será produzir respostas. Será fazer as perguntas que evitam decisões ruins IA — Portal Contábeis

Durante muito tempo confundimos conhecimento com valor. Enquanto poucos sabiam responder às perguntas difíceis, dominar respostas bastava para distinguir um bom contador.

Hoje quase qualquer resposta técnica pode ser encontrada em segundos. A pergunta relevante deixou de ser quem responde melhor. Passou a ser quem sabe perguntar aquilo que ninguém perguntou.

Vale notar que essa mudança é anterior a qualquer discussão sobre tecnologia. Respostas técnicas vêm se tornando abundantes há décadas: primeiro pela regulamentação acessível, depois pelos sistemas, agora por ferramentas que resolvem em instantes o que exigia horas de pesquisa. Quando um recurso se torna abundante, ele deixa de definir valor — não porque perdeu importância, mas porque deixou de ser raro.

A questão, então, é o que continua escasso. Minha resposta é que a escassez se deslocou da resposta para a pergunta. E essa não é uma inversão retórica: é uma constatação sobre como decisões realmente se formam.

Toda análise começa numa pergunta que ninguém examinou

Nenhuma análise nasce dos dados. Ela nasce de uma pergunta que alguém formulou — em geral rápido, em geral sem pensar muito, em geral tarde demais para ser revista.

Repare no fluxo real de trabalho. Alguém pergunta “qual o impacto tributário desta operação?” e uma equipe inteira se põe a calcular. Ninguém volta e questiona se aquela era a pergunta certa. A análise que vem depois pode ser impecável: metodologia sólida, dados corretos, conclusão bem apresentada. E, ainda assim, responderá exatamente ao que foi perguntado — nem mais, nem menos.

É aí que mora o problema. A pergunta define o espaço da decisão antes que qualquer análise comece. Ela determina o que será considerado e, sobretudo, o que ficará de fora. Uma pergunta estreita produz uma análise estreita, e ninguém percebe, porque tudo dentro daquele espaço parece consistente. O erro não fica visível no resultado; fica escondido na moldura.

Uma observação que atravessa toda a obra de Peter Drucker sobre eficácia gerencial vai nessa direção: os erros mais graves de uma organização raramente vêm de respostas erradas — vêm de perguntas erradas. E a razão é estrutural. Uma resposta errada, quando o problema está bem formulado, costuma ser detectada: os números não fecham, a conclusão destoa, alguém confere. Já uma resposta certa para a pergunta errada atravessa todos os controles sem disparar nenhum alarme. Ela é tecnicamente correta. Só é irrelevante — ou, pior, enganosa.

Um exemplo que qualquer escritório reconhece: a empresa pergunta qual regime tributário lhe custa menos. O contador responde com precisão, simula os cenários, recomenda o enquadramento mais econômico. Meses depois, descobre-se que o problema nunca foi tributário — era um modelo de negócio que não se sustentava em nenhum regime. A resposta estava certa. A pergunta é que era pequena demais para o problema.

A etapa que decide não é a decisão

Há uma forma útil de enxergar isso, vinda de um lugar improvável para a nossa profissão. John Boyd, estrategista militar, descreveu qualquer ação como quatro movimentos: observar, orientar, decidir e agir. Sua contribuição mais importante foi identificar qual deles é o decisivo — e não é o terceiro.

É a orientação. É nela que a pessoa interpreta o que observou, filtra pelo que já sabe, aplica seus modelos mentais e constrói o entendimento da situação. Quando se chega à decisão, a maior parte do trabalho já foi feita — e feita silenciosamente. Duas pessoas diante dos mesmos dados podem orientar-se de formas incompatíveis e, a partir daí, decidir de maneiras opostas com igual convicção.

Para quem produz informação, a implicação é séria: o nosso trabalho é alimentar a orientação alheia. Um relatório não é apenas um conjunto de fatos; é um recorte que sugere o que importa. Se a orientação está errada — se a pergunta que a organizou era a pergunta errada —, a decisão nasce comprometida por mais rigorosa que tenha sido a apuração.

Perguntas que redefinem o problema

Nem toda pergunta faz o mesmo trabalho. Algumas buscam informação dentro de um enquadramento aceito; outras questionam o enquadramento.

Ronald Heifetz separou os problemas em dois tipos que se confundem com facilidade: os técnicos, cuja solução já existe e depende de aplicar conhecimento especializado, e os adaptativos, para os quais não há resposta pronta, porque exigem mudar premissas, prioridades ou o próprio modo de operar. O erro mais caro e mais comum das organizações é tratar um problema adaptativo como se fosse técnico — pedir uma análise melhor quando o que falta é uma pergunta diferente. É a cena de sempre: a margem cai e a resposta imediata é solicitar um estudo de custos. O estudo virá bem-feito. Mas, se a queda vem de uma mudança na forma como o cliente decide comprar, nenhum detalhamento de custos vai revelá-la.

Roger Martin apontou uma segunda armadilha do enquadramento. Boa parte das decisões corporativas se apresenta como escolha entre duas opções — crescer ou preservar caixa, centralizar ou distribuir, cortar ou investir. Os melhores decisores tratam essas dicotomias com desconfiança: em vez de escolher entre A e B, mantêm as duas em tensão e procuram a alternativa que preserve o que há de valioso em ambas. A pergunta “qual das duas?” já carrega uma premissa não examinada — a de que são só duas.

Mary Parker Follett ilustrou isso muito antes, com uma cena banal: duas pessoas discutem se a janela deve ficar aberta ou fechada. Enquanto a pergunta for essa, alguém perde. Reformulada — o que cada uma realmente quer? —, descobre-se que uma quer ar fresco e a outra não quer a corrente direta. Abrir a janela da sala ao lado resolve o que a escolha binária tornava insolúvel.

O que os grandes erros têm em comum

Vale examinar de perto os fracassos corporativos de que temos notícia. Quase nunca faltou informação. Na maior parte das vezes, os dados que teriam antecipado o problema já circulavam pela empresa — em relatórios, em planilhas, na cabeça de alguém no operacional.

O que faltou foi alguém formular as perguntas que teriam levado aqueles dados à mesa.

São perguntas simples, e a simplicidade é justamente o que faz com que sejam ignoradas. O que precisaria ser verdade para que esta projeção se confirme? — obriga a explicitar premissas que ninguém escreveu. O que tornaria esta conclusão falsa? — força a procurar a evidência contrária em vez da confirmação confortável. Qual hipótese nunca foi testada porque todos assumem que é óbvia? — costuma revelar a crença mais frágil e mais protegida da organização. Que evidência nos faria mudar de ideia? — separa uma tese de uma convicção. E, talvez a mais desconfortável: o que deixamos de medir, e por quê? — porque toda organização mede o que sabe medir e trata o resto como se não existisse.

Nenhuma dessas perguntas exige informação nova. Todas exigem alguém disposto a fazê-las antes que a decisão esteja tomada — e é aí que está a dificuldade real. Perguntas assim são socialmente caras. Chegam quando a sala já se acomodou numa direção, quando alguém sênior já se posicionou, quando o cronograma pressiona. Fazê-las exige uma posição que dê legitimidade para incomodar sem parecer obstrução.

Por que essa posição é, historicamente, a do contador

Aqui está o ponto que me parece pouco explorado. A profissão contábil já ocupa, por construção, o lugar de onde as boas perguntas podem ser feitas.

O contador é o profissional que enxerga a empresa inteira. Vê a operação e o resultado, o compromisso assumido e o caixa disponível, o que foi prometido e o que foi entregue. Trabalha com séries históricas, o que permite comparar o discurso de hoje com o desempenho de ontem. E carrega uma tradição de ceticismo metódico — a auditoria, afinal, é uma disciplina inteira construída sobre a prática de não aceitar afirmações sem prova.

Richard Feynman dizia que o primeiro princípio de qualquer investigação honesta é não enganar a si mesmo — e que essa é a parte difícil, porque somos a pessoa mais fácil de enganar. É uma descrição precisa do que o rigor contábil deveria significar: não apenas verificar se os números estão certos, mas resistir à narrativa confortável que os números estão sendo usados para sustentar.

Jonathan Baron, estudando o que separa o bom pensamento do ruim, chegou a um critério que independe de inteligência: a qualidade da busca. Bons pensadores procuram mais possibilidades antes de concluir, buscam ativamente evidências contrárias às próprias hipóteses e revisam objetivos, não apenas meios. É uma descrição de método, não de talento — e método é exatamente o terreno onde a formação contábil é forte.

Shane Parrish observou algo complementar sobre onde os erros começam: raramente no momento dramático da escolha. Começam antes, nos instantes ordinários em que aceitamos a definição do problema que nos foi entregue sem examiná-la. Quando a decisão finalmente chega à pauta, o espaço de manobra já foi estreitado por escolhas invisíveis que ninguém registrou como escolhas.

O que muda na prática

Se essa leitura estiver correta, muda o momento em que o contador deveria entrar na conversa.

Hoje somos chamados depois: a decisão está encaminhada e precisa-se de números que a sustentem, ou de uma verificação do que já foi decidido. Nesse ponto, o valor que podemos agregar é limitado por definição — estamos validando um enquadramento que não ajudamos a construir.

O deslocamento é entrar antes. Não para decidir — não é esse o papel —, mas para ajudar a formular o que está sendo decidido. Perguntar quais premissas sustentam a projeção antes que ela seja aprovada. Explicitar o que precisaria ser verdade para o plano funcionar. Apontar a alternativa que a dicotomia apresentada excluiu. Registrar as hipóteses de uma decisão relevante de modo que, meses depois, seja possível examinar não só o resultado, mas o raciocínio.

Nada disso é atividade nova, a rigor. É a extensão natural do ceticismo que a profissão sempre exerceu sobre a informação — aplicado, agora, ao raciocínio que a antecede.

Uma reflexão

Passamos um século sendo treinados para responder corretamente. A formação, os exames, a educação continuada, a própria estrutura das normas — tudo está organizado em torno de saber a resposta certa. É uma competência valiosa e continuará necessária.

Só que ela vem deixando de ser o que nos distingue. E há uma assimetria que vale considerar: uma resposta errada, no fim das contas, custa o retrabalho. Uma pergunta errada custa a decisão inteira — e ninguém percebe, porque a análise que a sustentou estava perfeita.

Talvez o próximo século continue pertencendo aos profissionais que dominam as respostas. Mas será conduzido por aqueles que sabem formular as perguntas que impedem organizações de decidir mal.

Alexandre Ivo é contador e tributarista, com MBA em Gestão Tributária.

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