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ARTIGO DE ECONOMIA

Ata do Copom: corte com sinalização de cautela aponta riscos

Ata do Copom reforça preocupação com política fiscal, cenário externo e expectativas de inflação ainda desancoradas da meta.

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Ata do Copom: corte com sinalização de cautela aponta riscos

O Comitê de Política Monetária (Copom) divulgou a ata da reunião de agosto, na qual decidiu, por unanimidade entre os sete diretores, reduzir a Selic em 0,25 ponto porcentual (p.p.), para 14% ao ano (a.a.). Foi o quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março. O documento, no entanto, mantém o padrão observado desde o comunicado divulgado imediatamente após a decisão: não há orientação explícita sobre os próximos passos. O comitê reitera que a magnitude dos futuros ajustes será definida à luz da evolução do cenário econômico, evitando qualquer compromisso prévio com novas reduções dos juros.

Dois pontos se destacam na leitura do documento. O primeiro é o retorno explícito da política fiscal ao centro do balanço de riscos para a convergência da inflação. O Copom voltou a defender que as políticas fiscal e monetária precisam caminhar de forma harmônica, bem como que a condução das contas públicas deveria atuar de maneira anticíclica, contribuindo para reduzir o prêmio de risco embutido na curva de juros, e não para ampliá-lo. A ata reconhece que a política fiscal afeta a inflação por duas vias — no curto prazo, por meio do estímulo à demanda agregada, e, estruturalmente, pela percepção sobre a sustentabilidade da dívida pública. É um recado direto sobre o arcabouço fiscal vigente e o calendário de gastos do governo em um ano pré-eleitoral.

O segundo ponto é o cenário externo, tratado como a principal fonte de incerteza. O comitê cita as tensões no Oriente Médio — sobretudo pelos efeitos sobre os preços do petróleo — e a permanência de indefinições em torno da política econômica dos Estados Unidos como riscos concretos ao comportamento dos preços domésticos. A combinação entre o risco fiscal interno e as dúvidas geopolíticas externas sustenta o tom mais cauteloso da ata, mesmo diante de indicadores recentes de inflação relativamente benignos, como o próprio Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho, divulgado horas depois do documento.

Também chama atenção a forma como o Copom aborda os choques de oferta. A ata deixa claro que a autoridade monetária não deve reagir aos efeitos primários de choques de preços, mas acompanhar com atenção redobrada eventuais impactos de segunda ordem sobre as expectativas e os preços administrados. Caso esses efeitos se materializem, a resposta deverá ser firme. Na prática, isso significa que resultados favoráveis pontuais, como a desaceleração observada em julho, não são suficientes, por si só, para abrir espaço a um ritmo mais acelerado de cortes.

Por fim, o documento reconhece que as expectativas de inflação permanecem desancoradas quanto à meta. Nesse contexto, a política monetária precisa continuar restritiva por mais tempo do que seria necessário em um ambiente de plena ancoragem das expectativas. É esse fator que ajuda a explicar por que o mercado, mesmo frente a uma Selic em trajetória de queda, não precifica um espaço significativamente maior para a flexibilização. 

Para o setor produtivo, a leitura prática é dupla. De um lado, o ciclo de redução dos juros permanece em curso e tende a beneficiar de forma gradual o custo do crédito, o financiamento do capital de giro e os investimentos. De outro, o ritmo segue deliberadamente lento, e a ata deixa claro que a possibilidade de acelerar os cortes depende menos dos dados de curto prazo e mais da percepção do mercado sobre a trajetória fiscal e a estabilidade do ambiente externo. Em outras palavras, o custo do dinheiro no Brasil deverá permanecer elevado por mais tempo do que seria desejável. Ademais, a variável mais relevante para acelerar essa convergência não está sob controle do Banco Central, mas depende da condução da política fiscal.

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