Existe um tipo de erro que nenhum contador revisa: o que dá um número alto.
Se uma simulação de carga tributária devolve um imposto menor do que o atual, todo mundo desconfia, refaz a conta, confere a fórmula. Se devolve um imposto maior, ninguém mexe. O resultado confirma o que o mercado repete há dois anos — que a Reforma vai encarecer — e a conta segue direto para a apresentação do cliente.
É exatamente nesse ponto cego que encontrei a falha que descrevo aqui.
Auditei um motor de cálculo de transição para IBS e CBS linha a linha, conferindo cada percentual contra as tabelas da Lei Complementar 214/2025. O erro não estava numa fórmula rebuscada. Estava na premissa, logo no começo da rotina.
O erro cabe em uma frase
A rotina somava PIS, COFINS, ICMS e ISS num montante único e tratava aquilo como base de referência de um tributo só.
Só que não é um. São dois.
A CBS é federal e substitui PIS e COFINS. O IBS é de competência compartilhada entre estados e municípios e substitui ICMS e ISS. Cada um tem alíquota de referência própria, partilha própria e trilha de transição própria. Empilhar os quatro tributos antigos numa pilha só e aplicar sobre ela a lógica de um tributo é somar o que não se soma.
Havia um segundo vício embutido. A alíquota caía sobre a receita bruta em cada etapa da cadeia, como se o regime ainda fosse cumulativo. Mas IBS e CBS operam com crédito financeiro amplo — na prática, incidem sobre o valor agregado, não sobre o faturamento inteiro de cada elo.
Somados, os dois vícios inflavam o resultado em cerca de três vezes.
Por que um erro desse tamanho sobrevive
Porque ele não parece erro. Parece cautela.
E prudência mal calibrada não é cautela — é decisão errada vestida de decisão conservadora.
O número não fica no papel. Ele vira preço de venda. Vira cláusula de reajuste em contrato de cinco anos. Vira escolha de regime tributário. Vira a resposta que o empresário leva para o gerente do banco.
Errar três vezes para cima numa projeção de carga não é imprecisão técnica. É apontar a direção contrária.
Quatro testes para rodar hoje na sua ferramenta
Não peço que ninguém acredite em mim. Peço que teste o que estiver usando — planilha própria ou software de terceiro, tanto faz.
1. Exija ver CBS e IBS separados: Se a ferramenta devolve um número único de "IBS/CBS" e não abre os dois, ela está escondendo a premissa. Se não abrir nem quando você pedir, o alerta é maior.
2. Some os anexos você mesmo: As tabelas de partilha estão na LC 214/2025. Bata a soma de cada uma. É trabalhoso, e é justamente por isso que quase ninguém faz — a maioria replica planilha de terceiro que replicou de um quarto.
3. Monte uma empresa impossível: Custo de aquisição em 95% da receita, tudo com direito a crédito. Se o imposto projetado não desabar, a ferramenta está calculando sobre base bruta e ignorando a não cumulatividade.
4. Divida um cenário pelo outro: Rode o mesmo caso pela regra atual e pela regra nova. Razão acima de dois numa operação comum? Pare antes de mostrar ao cliente. Pode ser real. Mas o mais provável é premissa.
Qualquer profissional roda os quatro em uma tarde. É pouco, perto do que custa descobrir tarde.
A janela barata está fechando
Até ontem, erro de simulação custava pouco. Agora custa caro.
Empresas do Simples Nacional têm até 30 de setembro para decidir se pagarão IBS e CBS dentro do DAS ou pelo regime regular, com efeito sobre todo o ano de 2027. Empresas do Lucro Presumido e do Lucro Real estão revisando preço e contrato agora, com base em projeções feitas agora.
Quem apresentar uma conta errada nas próximas semanas não vai descobrir nas próximas semanas. Vai descobrir em 2027, com o cliente já comprometido.
O que a Reforma vai cobrar da nossa categoria
Uma disciplina que a legislação anterior tolerava mal: testar a própria conta antes de defendê-la.
Ler a norma não basta. É preciso rodar a norma contra dado real e conferir se o que sai faz sentido — inclusive, e principalmente, quando o resultado confirma o que já se esperava encontrar. Confirmação é o disfarce favorito do erro.
Conferir a ferramenta é a forma mais barata de descobrir isso.
A outra é o cliente descobrir por você.
Douglas Henrique Amaral, contador (CRC/MG 105.962/O), pós-graduado em Gestão Contábil, Auditoria e Controladoria e em Direito do Trabalho e Previdenciário, com MBA em Holdings Patrimoniais e Familiares. Professor universitário, atua com ICMS/MG, SPED e Reforma Tributária.













