A reforma tributária já entrou na agenda das empresas brasileiras. Muito se discute sobre as mudanças nas regras, nos novos tributos e no funcionamento do split payment, mecanismo que permitirá a retenção automática de CBS e IBS no momento da liquidação das transações. Mas existe uma discussão que ainda ocupa pouco espaço e que será determinante para o sucesso dessa transformação. Antes mesmo de a nova sistemática entrar em vigor, será preciso construir uma infraestrutura tecnológica capaz de sustentar uma das principais mudanças operacionais já vividas pelo sistema financeiro brasileiro.
Essa dimensão fica mais evidente quando observamos a escala do mercado nacional. Dados do Banco Central mostram que, apenas em
Quando o tributo passa a fazer parte da transação
A partir da implementação do split payment, o cálculo e a retenção dos tributos deixam de acontecer posteriormente e passam a fazer parte do próprio fluxo financeiro da transação. Isso significa que pagamentos, informações fiscais, conciliação financeira e destinação dos recursos passam a ocorrer de forma integrada. Bancos, adquirentes, fintechs, plataformas de pagamento, ERPs, sistemas fiscais e órgãos públicos precisarão compartilhar informações continuamente, com alto nível de sincronização, disponibilidade e segurança.
Essa transformação vai muito além do cumprimento de uma obrigação regulatória. Ela exige uma revisão completa da arquitetura tecnológica das organizações. Integrações por APIs, atualização de sistemas legados, evolução dos ERPs, governança de dados, automação de processos e mecanismos robustos de conciliação financeira deixam de ser iniciativas isoladas e passam a fazer parte de uma mesma estratégia de preparação para um novo ambiente transacional.
O desafio cresce porque essa integração não acontecerá dentro de um único ambiente tecnológico. Cada instituição possui sistemas próprios, fornecedores diferentes, níveis distintos de maturidade digital e arquiteturas desenvolvidas ao longo de décadas. Construir interoperabilidade entre todos esses participantes será um dos fatores mais críticos para garantir que milhões de transações sejam processadas diariamente sem comprometer a experiência do usuário ou a continuidade dos negócios.
A vantagem que o Brasil já construiu
O Brasil possui uma vantagem importante nesse processo. Nos últimos anos, o mercado financeiro demonstrou capacidade para implementar infraestruturas extremamente complexas, como Pix, Open Finance e pagamentos instantâneos. Em
Isso, porém, não reduz o nível de preparação necessário. O ano de 2026 representa um período estratégico para testes, homologações e adaptações. As empresas que iniciarem esse movimento com antecedência terão tempo para revisar processos, identificar gargalos, fortalecer integrações e preparar suas equipes. Já aquelas que enxergarem a mudança apenas sob a perspectiva tributária correm o risco de concentrar esforços na adequação regulatória enquanto deixam de lado justamente a infraestrutura que permitirá a operação funcionar.
Os impactos também alcançarão a gestão financeira das organizações. Muitas empresas utilizam temporariamente os valores destinados aos tributos como parte do capital de giro até a data do recolhimento. Com o split payment, esse recurso deixa de circular pelo caixa da empresa. Em um negócio com faturamento mensal de R$ 750 mil e alíquota efetiva de 26,5%, por exemplo, quase R$ 200 mil deixam de transitar temporariamente pela operação. Essa mudança exige planejamento financeiro, mas também sistemas capazes de oferecer conciliação automática, visibilidade em tempo real e controle preciso das informações.
Outro ponto pouco debatido é a importância da qualidade dos dados. Quanto maior o volume de transações processadas em tempo real, menor será a margem para inconsistências. Informações divergentes entre sistemas financeiros, ERPs e plataformas fiscais poderão gerar impactos na recuperação de créditos, aumentar custos operacionais e comprometer a eficiência dos processos. Em um ambiente que processa bilhões de transações todos os anos, pequenas falhas de integração podem produzir efeitos significativos sobre toda a cadeia operacional.
A tecnologia como posição estratégica
Esse cenário reforça uma mudança importante no papel da tecnologia dentro das organizações. A infraestrutura deixa de ser apenas um elemento de suporte e passa a ocupar posição estratégica para garantir conformidade, eficiência operacional e competitividade. Empresas que investirem antecipadamente em integração, interoperabilidade, automação e governança estarão mais preparadas para responder às novas exigências do mercado e transformar uma obrigação regulatória em oportunidade de modernização.
A experiência recente do sistema financeiro mostra que grandes transformações não acontecem apenas porque novas regras são publicadas. Elas se concretizam quando existe uma infraestrutura capaz de conectar instituições, compartilhar informações de forma segura e processar operações em larga escala sem perda de desempenho. Foi assim com o Pix, com o Open Finance e tende a ser assim com o split payment.
Por Ubiratan Lima, Diretor de Bancos da Evertec no Brasil











