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COMPORTAMENTO FINANCEIRO

Contabilidade mental: por que o dinheiro extra "pesa menos" no bolso do que o salário

Entenda como o cérebro categoriza 13º, bônus e restituição do IR.

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Contabilidade mental: por que o dinheiro extra

Você provavelmente pensa duas vezes antes de gastar R$ 500 do salário com algo supérfluo. Mas os mesmos R$ 500, quando vêm de uma restituição do Imposto de Renda, de um bônus ou do 13º, costumam sair da conta com bem menos resistência. O dinheiro é exatamente o mesmo — mesmo poder de compra, mesmo valor em reais — mas o cérebro trata como se fosse de categorias diferentes. Esse fenômeno tem nome: contabilidade mental.

O que é a contabilidade mental

O conceito foi formalizado pelo economista Richard Thaler, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2017, e descreve a tendência das pessoas de dividir o dinheiro em "contas" mentais separadas, de acordo com a origem ou o destino planejado dele, em vez de tratá-lo como um recurso único e fungível. Na teoria econômica clássica, um real vale um real, não importa de onde veio. Na prática do dia a dia, um real do salário, um real do 13º e um real de um prêmio de loteria carregam pesos psicológicos diferentes — e isso muda o comportamento de quem gasta.

Por que o dinheiro "extra" costuma durar menos

Pesquisas sobre o uso do 13º salário no Brasil mostram esse padrão na prática: uma pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box apontou que, entre quem pretendia usar o valor, 59% destinariam aà quitação de dívidas ou pagamento de contas básicas, enquanto 23% reservariam parte para lazer ou viagem — uma fatia de gasto não essencial que dificilmente teria o mesmo peso proporcional se fosse debatida a partir do salário mensal fixo. O padrão se repete com a restituição do Imposto de Renda: parte relevante de quem recebe já usou o valor em anos anteriores para organizar dívidas, mas outra parte trata o valor como "sobra", liberando gastos que não fariam com o salário do mês.

Simulação: os mesmos R$ 3.000, dois rótulos diferentes

Imagine duas situações com o mesmo valor: R$ 3.000.

Se esse valor chega como parte do salário mensal, dividido ao longo do orçamento, a tendência é que a maior parte seja direcionada para contas fixas, e uma sobra pequena para gastos livres — geralmente na casa de uma ou duas centenas de reais, não mais que isso.

Se o mesmo valor chega como 13º, bônus ou restituição — um recebimento "fora da rotina" — não é incomum que uma fatia bem maior, como R$ 800 ou R$ 1.000, seja gasta de forma pouco planejada, justamente por ser percebida como "dinheiro que não estava contando antes".

A diferença fica clara quando se calcula o custo de oportunidade: se, em vez de gastar esses R$ 800 extras, a pessoa os aplicasse por 12 meses em algo que rende próximo de 100% do CDI (com a Selic em 14% ao ano), o rendimento líquido — já descontado o Imposto de Renda regressivo de 17,5% sobre o prazo de um ano — ficaria em torno de R$ 92. Pode parecer pouco isoladamente, mas é a diferença entre esse dinheiro "sumir" no mês seguinte ou virar uma reserva que continua rendendo.

Por que isso também atrapalha outras decisões

A contabilidade mental não aparece só na hora de gastar dinheiro extra — ela também leva a decisões pouco eficientes com o dinheiro do dia a dia. Um exemplo comum: manter uma reserva parada na poupança ou na conta corrente, rendendo pouco, enquanto se carrega uma dívida no rotativo do cartão de crédito, cujos juros no Brasil costumam superar 15% ao mês. Do ponto de vista da conta bancária, são duas "caixinhas" separadas — reserva de um lado, dívida de outro. Do ponto de vista financeiro real, é dinheiro perdendo para juros muito mais altos do que qualquer coisa que a reserva parada consiga render.

Como usar essa tendência a seu favor

Não é preciso eliminar a contabilidade mental — ela também tem um lado útil, como separar dinheiro por objetivo para não misturar reserva de emergência com gasto do dia a dia. O ponto é reconhecer quando ela está sendo usada para justificar um gasto que não faria sentido de outra forma. Um hábito simples ajuda: antes de decidir o que fazer com qualquer valor que chegue fora da rotina — 13º, bônus, restituição, herança — vale tratá-lo, por um momento, como se fosse parte do salário normal, e perguntar: eu gastaria dessa forma se esse dinheiro tivesse vindo do meu pagamento de sempre?

Conclusão

O dinheiro não tem memória de onde veio, mas a cabeça de quem o recebe, sim. Entender que um real do 13º vale exatamente o mesmo que um real do salário é um passo simples que evita que boa parte do dinheiro extra do ano — que poderia quitar dívidas, virar reserva ou render juros — termine gasta sem sequer perceber onde foi parar.

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