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ARTIGO DE ECONOMIA

O descompasso chinês

Crise imobiliária e excesso industrial pressionam Pequim em direção à deflação

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O descompasso chinês

A China vive, hoje, um paradoxo que desafia os manuais tradicionais de política econômica. O governo injeta capital no sistema financeiro para estimular a expansão do crédito, mas o principal obstáculo da economia não é a escassez de recursos disponíveis — o problema está, sobretudo, na falta de disposição de famílias e empresas para assumir novas dívidas.

O ponto de partida desse descompasso é a crise imobiliária que se arrasta desde o estouro da bolha, em 2021. Os números dão a dimensão do problema: estima-se que existam cerca de 60 milhões de imóveis vazios espalhados pelo país, enquanto os preços das residências continuam em queda, recuando 3,3% em junho de 2026, na comparação anual, atingindo 49 das 70 maiores cidades chinesas. Como o setor imobiliário concentra aproximadamente 70% da riqueza das famílias, a desvalorização produz um “efeito riqueza às avessas”. Quando o principal ativo patrimonial perde valor, o consumidor tende a reduzir gastos, mesmo que sua renda permaneça inalterada. O reflexo aparece na pressão deflacionária que se disseminou pela economia doméstica desde 2023, em meio a consumidores que preferem poupar a consumir diante da crescente incerteza sobre seu patrimônio.

Ao mesmo tempo, o outro pilar do modelo de crescimento chinês — o investimento industrial, sustentado por fortes incentivos estatais — continua avançando. O problema é que a capacidade produtiva cresce mais rapidamente do que a demanda doméstica consegue absorver. Fábricas disputam intensamente uma fatia de mercado que não se expande no mesmo ritmo da oferta, comprimindo margens e reduzindo preços para preservar participação e sobreviver. O Índice de Preços ao Produtor do país tem registrado quedas expressivas nos últimos anos, refletindo justamente esse excesso de capacidade. Assim, os dois principais motores da economia (imóveis e indústria) acabam exercendo pressão na mesma direção: para baixo, sobre os preços. É o encontro entre o efeito riqueza negativo e a sobrecapacidade industrial que ajuda a explicar por que a China, ao contrário de grande parte do mundo no período pós-pandemia, passou mais de três anos enfrentando pressões deflacionárias, e não inflacionárias.

Por isso, Pequim optou por atacar o problema pelo lado da oferta de crédito. Neste mês, o Ministério das Finanças anunciou uma injeção de US$ 54 bilhões, equivalentes a 360 bilhões de iuanes, em bancos e seguradoras estatais, incluindo, pela primeira vez, as seguradoras nesse tipo de programa. Instituições como o Banco Agrícola da China e o ICBC devem captar, juntas, 260 bilhões de iuanes para recompor capital. Seguradoras como a Sinosure e a China Re, por sua vez, receberão aportes destinados a conter a deterioração de seus índices de solvência, que recuaram de 204,5% para 180,6% em um ano. A lógica é que instituições financeiras mais capitalizadas ganham mais capacidade para expandir o crédito e acelerar a baixa contábil de empréstimos inadimplentes, contribuindo para a limpeza de balanços pressionados pela prolongada crise imobiliária.

E é justamente aqui que reside uma questão que merece mais atenção do que tem recebido. A principal restrição ao crédito chinês nunca foi, necessariamente, a falta de capital nos bancos, mas a fraqueza da demanda por empréstimos. Famílias endividadas em imóveis que perderam valor e empresas pressionadas por margens cada vez menores não estão simplesmente sem acesso a financiamento; muitas estão relutantes em assumir novas dívidas em um ambiente de expectativas deterioradas. A recapitalização de bancos e seguradoras representa, portanto, uma resposta pelo lado da oferta a um problema cuja origem está, majoritariamente, no lado da demanda. 

Isso não significa que a medida seja irrelevante. Ao contrário, reduz riscos sistêmicos, dá fôlego a instituições fragilizadas e cria condições para que o crédito volte a circular com mais intensidade quando a confiança for restaurada. De forma isolada, porém, dificilmente será suficiente para reverter o ciclo de baixo consumo, excesso de capacidade produtiva e queda de preços que mantém a economia chinesa sob pressão.

O verdadeiro teste da política econômica chinesa em 2026 não será medir quanto capital os bancos conseguem levantar, mas avaliar se Pequim será capaz de deslocar, de fato, o centro de gravidade de seu modelo de crescimento — historicamente baseado no investimento e nas exportações — para o consumo familiar. Enquanto essa transição não avançar, medidas como a recapitalização de US$ 54 bilhões tendem a funcionar mais como um amortecedor contra riscos financeiros do que como um verdadeiro motor de retomada econômica.

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