Os dados recentes da economia brasileira revelam uma combinação preocupante: a atividade perde ritmo de forma consistente, enquanto a inflação recua em velocidade insuficiente para permitir cortes mais expressivos dos juros. Varejo, serviços, crédito e inadimplência compõem um quadro em que o crescimento perde fôlego, mas o custo do dinheiro não pode cair na mesma proporção. No centro desse dilema, a expansão fiscal desordenada que o governo sustenta há anos e que, agora, limita a margem de atuação da política monetária.
Os sinais de desaceleração são nítidos. O volume de vendas do varejo restrito cresceu apenas 1,2% no acumulado de 12 meses até julho de 2026, ante 2,8% em junho, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC/IBGE) — a segunda queda consecutiva na comparação anual. No varejo ampliado, a expansão também foi de 1,2% no período. No setor de Serviços, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) aponta desaceleração pelo terceiro mês consecutivo, com o crescimento acumulado em 12 meses passando de 2,6% para 2,4%. Mais revelador do que os volumes é o descompasso entre receita nominal e quantidade vendida. No varejo restrito, a receita nominal avançou 5,2% em 12 meses, contra apenas 1,2% em volume, uma diferença de quatro pontos porcentuais (p.p.) que reflete, em grande medida, a alta de preços, e não uma expansão real da demanda. O mesmo padrão aparece nos Serviços, cuja receita nominal cresceu 7,5% no período, enquanto o volume avançou apenas 2,4%.
O crédito amplia as dificuldades. Com a Selic ainda em patamar elevado, os segmentos mais dependentes de financiamento — como eletrodomésticos, veículos e material de construção — acumulam sinais de fraqueza persistente. A inadimplência das famílias permanece pressionada pelo elevado nível de endividamento, herança dos anos de crédito farto e barato que antecederam o ciclo de alta dos juros. O comprometimento da renda com o serviço das dívidas restringe o consumo mesmo diante de reajustes salariais e tende a manter a demanda doméstica contida nos próximos trimestres, ainda que o mercado de trabalho permaneça relativamente aquecido.
A inflação, por sua vez, oferece algum alívio, mas ainda insuficiente. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto registrou deflação de 0,32%, o melhor resultado para o mês desde o Plano Real, influenciado pelo Bônus de Itaipu nas tarifas de energia elétrica e pela queda nas passagens aéreas e nos combustíveis. No acumulado de 12 meses, o índice recuou de 4,44% para 4,22%, permanecendo dentro do intervalo de tolerância da meta, mas ainda 1,2 p.p. acima do centro de 3%. O problema está na composição desse resultado: a deflação foi concentrada em preços administrados e itens voláteis, enquanto a inflação de serviços — mais sensível à demanda doméstica e à inércia salarial — permanece próxima de 6% ao ano (a.a.). As expectativas captadas pelo Boletim Focus reforçam esse diagnóstico, com a projeção mediana para 2026 em torno de 5% e, para 2027 (horizonte relevante à condução da política monetária), em 4%, ainda distante da meta de 3%. Com as expectativas desancoradas, o Banco Central (BC) dispõe de pouco espaço para acelerar o ciclo de cortes sem pôr em risco a credibilidade do processo de convergência da inflação à meta.
O fator central por trás dessa armadilha é fiscal. A expansão persistente dos gastos, sem uma contrapartida estrutural pelo lado das receitas ou uma redução consistente das despesas discricionárias, mantém a demanda em nível elevado em relação à capacidade produtiva, alimentando pressões sobre os preços e dificultando a desinflação dos serviços. Em um ambiente de inflação acima da meta, uma política fiscal expansionista exige que o BC mantenha os juros em níveis mais altos por mais tempo, neutralizando parte dos efeitos da política monetária restritiva. Ao mesmo tempo, o custo do serviço da dívida aumenta, intensificando a deterioração das contas públicas e criando um círculo vicioso entre juros elevados, resultado fiscal e endividamento. Em um ano eleitoral, os incentivos políticos para interromper essa dinâmica são ainda menores.
O cenário que se desenha, portanto, é o de uma economia em desaceleração sem a contrapartida de uma desinflação suficientemente rápida. Para empresas dos setores de Comércio e Serviços, isso significa conviver com crédito caro e um consumo familiar sustentado, principalmente, pelo crescimento real da renda, mecanismo que, por sua vez, depende de um mercado de trabalho que pode perder fôlego à medida que a atividade econômica esfria. O risco não é de um colapso imediato, mas de um período prolongado de crescimento medíocre, inflação resistente e juros estruturalmente elevados. O custo dessa combinação, como tantas vezes ocorre, tende a recair sobre empresas e consumidores.












