A NR-1, que passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), coloca em evidência questões como sobrecarga, assédio e aspectos relacionados à organização e às relações de trabalho. Para o setor de Tecnologia, marcado por alta carga cognitiva, velocidade de transformação, pressão por resultados e necessidade constante de atualização, essa mudança é especialmente relevante. Mais do que uma obrigação legal, a adequação representa uma oportunidade de olhar de forma estruturada para condições de trabalho que impactam diretamente as pessoas e, consequentemente, a sustentabilidade do negócio.
As novas disposições da NR-1 entraram em vigor em maio deste ano. Embora as sanções relacionadas especificamente às novas exigências sobre fatores de riscos psicossociais estejam temporariamente suspensas por decisão do Supremo Tribunal Federal, as diretrizes permanecem vigentes. Portanto, a suspensão das penalidades não deve ser compreendida como uma interrupção da responsabilidade das organizações sobre o tema, mas como uma oportunidade para estruturar processos, amadurecer metodologias e garantir que a adequação aconteça de maneira consistente.
Um dos pontos importantes dessa mudança é compreender que gerenciar fatores de riscos psicossociais vai além de promover ações de saúde mental e bem-estar. Uma empresa pode oferecer apoio psicológico, programas de qualidade de vida, atividades de conscientização e benefícios e, ainda assim, manter fatores de risco relacionados à própria organização do trabalho. O desafio proposto pela NR-1 é identificar esses fatores, avaliá-los, registrá-los no inventário de riscos, estabelecer planos de ação e acompanhar continuamente as medidas adotadas, com a participação dos trabalhadores.
Para as áreas de Pessoas e Cultura e Recursos Humanos, a norma amplia uma atuação que precisa acontecer de maneira integrada com a gestão de Saúde e Segurança do Trabalho, SESMT e CIPA, quando aplicáveis, lideranças e demais responsáveis pela organização do trabalho. Afinal, quando um fator de risco está relacionado à forma como o trabalho é estruturado, a resposta não pode estar voltada exclusivamente para o indivíduo. É necessário compreender o contexto, identificar suas causas e atuar preventivamente sobre aquilo que pode ser modificado. A preocupação já chegou aos orçamentos corporativos: segundo o Gartner, 92% dos líderes da pesquisa Total Rewards de 2024 afirmam que os investimentos em programas de bem-estar dos funcionários permanecem estáveis ou estão aumentando.
A liderança ocupa um papel importante nesse processo. Não se espera que gestores se tornem especialistas em saúde mental, tampouco que assumam a responsabilidade de diagnosticar pessoas. É necessário, porém, que estejam preparados para reconhecer fatores relacionados ao ambiente e à organização do trabalho, ouvir suas equipes, encaminhar adequadamente situações que demandem suporte especializado e atuar sobre aspectos que estejam sob sua governabilidade. Em Tecnologia, isso pode significar observar questões como distribuição da carga de trabalho, pressão por disponibilidade, clareza de prioridades, autonomia, qualidade da comunicação e a maneira como erros, conflitos e situações críticas são conduzidos.
Os processos internos também precisam acompanhar essa mudança. Fluxos de comunicação claros, canais de denúncia efetivos, mecanismos de escuta, registros consistentes e acompanhamento das ações são parte de uma estrutura capaz de transformar diagnóstico em prevenção. Mais do que produzir documentos para demonstrar conformidade, o objetivo deve ser utilizar as informações geradas para orientar decisões e promover melhorias efetivas nas condições de trabalho.
Os riscos da não conformidade não se limitam às penalidades administrativas. Situações de adoecimento relacionadas ao trabalho podem gerar afastamentos, responsabilização judicial, perda de produtividade, aumento da rotatividade e impactos na capacidade de atrair e reter profissionais. Em um mercado como o de Tecnologia, no qual conhecimento especializado e capital humano são determinantes para a continuidade e o crescimento dos negócios, cuidar das condições em que o trabalho acontece também é uma decisão estratégica.
O caminho para a adequação passa por diagnóstico, identificação e avaliação dos fatores de risco, definição de responsabilidades, elaboração de planos de ação, capacitação das lideranças, participação dos trabalhadores, monitoramento e melhoria contínua. Mais do que um checklist regulatório, a NR-1 traz a oportunidade de incorporar a gestão dos fatores de riscos psicossociais à própria cultura de prevenção das organizações. Para empresas de Tecnologia, acostumadas a identificar vulnerabilidades, gerenciar riscos e proteger operações, aplicar essa mesma lógica às condições de trabalho é também uma forma de fortalecer pessoas, cultura e sustentabilidade do negócio.
Por: Patrícia Spanner, Diretora de Pessoas e Cultura da iTProtect











