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Open Finance: o brasileiro quer compartilhar dados, mas quer saber “o que ganho com isso?”

Desafios de engajamento: como comunicar benefícios e construir confiança do consumidor no sistema financeiro.

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Open Finance: o brasileiro quer compartilhar dados, mas quer saber “o que ganho com isso?” IA — Portal Contábeis

Durante anos, a discussão sobre Open Finance esteve concentrada em tecnologia, segurança e compartilhamento de dados. Para o consumidor, porém, a pergunta é bem mais simples: “o que eu ganho com isso?” A questão é relevante porque o brasileiro não parece necessariamente resistente à ideia de compartilhar seus dados financeiros. O problema é entender por que deveria fazê-lo.

Nosso estudo sobre Principalidade Bancária 2026 mostra justamente essa lacuna. 63% dos entrevistados afirmam já ter ouvido falar em Open Finance, mas apenas 28% dizem conhecer bem o sistema e saber como ele funciona. Existe, portanto, uma distância considerável entre awareness e compreensão. E, quando o consumidor não entende o mecanismo, dificilmente enxerga valor suficiente para entregar algo tão sensível quanto seus dados financeiros.

Vale reforçar que o Open Finance foi criado justamente para permitir que o cliente tenha mais controle sobre seus próprios dados financeiros. Com autorização, informações de contas, cartões, operações de crédito, investimentos e câmbio podem ser compartilhadas com outra instituição.

Na prática, isso permite que uma instituição conheça melhor o perfil financeiro do consumidor e possa oferecer produtos mais adequados, além de facilitar a comparação e a contratação de serviços. O Banco Central cita entre os possíveis benefícios acesso a crédito e investimentos com melhores condições, redução de tarifas, aumento de limites e maior facilidade para contratar produtos.

Mas existe uma diferença importante entre ter um benefício disponível e perceber esse benefício. Para o consumidor, compartilhar dados é uma troca, pois ele entrega informação em troca de alguma coisa que considere relevante, que pode ser uma taxa menor no empréstimo, um limite mais adequado, uma oferta realmente personalizada, a possibilidade de visualizar todas as contas em um só lugar e até mesmo menos burocracia para contratar um produto. Sem essa segunda parte, o Open Finance corre o risco de ser percebido apenas como mais uma autorização dentro do aplicativo.

O paradoxo é que o sistema brasileiro já alcançou uma escala significativa. Em agosto de 2026, ao marcar cinco anos da regulamentação do Open Finance, o Banco Central informou que o ecossistema já tinha 103 milhões de autorizações ativas de compartilhamento de dados, envolvendo 68 milhões de contas. Até junho de 2025, R$31 bilhões em operações de crédito haviam se originado da análise de dados compartilhados pelo sistema.

Os números mostram que a infraestrutura está funcionando e que existem aplicações concretas dos dados compartilhados. Mas eles também levantam uma questão estratégica: se o Open Finance já movimenta milhões de autorizações, por que uma parcela tão grande da população ainda não sabe exatamente como ele funciona? A resposta pode estar menos na tecnologia e mais na comunicação do benefício.

Neste sentido, existe uma mudança importante na forma de pensar o Open Finance. Em vez de comunicar: “Compartilhe seus dados”, as instituições precisam responder: “Compartilhe seus dados e, em troca, nós conseguimos fazer isso por você”. A diferença parece pequena, mas muda completamente a proposta de valor.

É a mesma lógica que já transformou outras experiências digitais. O consumidor aceita fornecer localização para receber uma rota melhor; permite notificações para acompanhar uma entrega; e informa preferências para receber recomendações mais relevantes. No Open Finance, a lógica deveria ser semelhante: o dado precisa voltar para o consumidor na forma de uma experiência melhor.

E isso importa ainda mais em um mercado de crédito pressionado. Para se ter uma ideia, o Banco Central registrou, em julho de 2026, inadimplência de 6,4% no crédito livre, maior nível da série histórica, enquanto os atrasos das famílias chegaram a 7,8%. O comprometimento da renda das famílias com dívidas alcançou 28,9% em junho.

Nesse cenário, uma das maiores oportunidades do Open Finance está justamente em usar dados para melhorar a qualidade da decisão de crédito. Se uma instituição consegue enxergar melhor o comportamento financeiro de um consumidor, pode avaliar seu perfil de maneira mais completa e, potencialmente, oferecer uma condição mais adequada.

Não se trata simplesmente de liberar mais crédito. Trata-se de usar mais informação para tomar decisões melhores e essa diferença é crucial.

Por fim, existe ainda um segundo obstáculo: a confiança. Em nossos levantamentos notamos que apenas 32% dos entrevistados afirmam confiar no sistema financeiro brasileiro, enquanto 30% dizem confiar na economia brasileira atualmente.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que o brasileiro valoriza transparência, segurança e relacionamento na construção da relação com sua instituição financeira. Isso significa que simplesmente dizer que o Open Finance é “seguro” pode não ser suficiente. O consumidor precisa entender quem recebe seus dados, quais dados serão compartilhados, por quanto tempo e, principalmente, o que receberá em troca.

No mundo atual, a pergunta deixa de ser “como fazer o brasileiro compartilhar seus dados?” e passa a ser “como fazer o brasileiro perceber que vale a pena compartilhá-los?”

Pense nisso!

Walney Barbosa é Diretor de Insights Delivery

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