O presidente da China, Xi Jinping, passou três dias em Washington, de 23 a 25 de setembro, e foi recebido com honras raramente concedidas a um líder estrangeiro. Em sua segunda visita de Estado em terras estadunidenses desde 2015, Jinping foi recebido pessoalmente por Trump no aeroporto, um gesto que nenhum presidente americano havia repetido com um chefe de Estado estrangeiro em 11 anos. A programação incluiu ainda um jantar para mais de cem convidados, entre autoridades e empresários. Trump falou em uma amizade verdadeira com Jinping e incluiu na pauta temas como segurança, tecnologia e superinteligência. O presidente chinês, por sua vez, afirmou que os dois países têm uma responsabilidade histórica pela estabilidade global.
Os resultados concretos da cúpula foram modestos, ao passo que os comunicados dos dois governos convergiram em poucos pontos. O principal avanço foi na área comercial: Estados Unidos e China concordaram em reduzir tarifas sobre US$ 30 bilhões em bens de cada lado. Na lista americana, produtos agrícolas, madeira e cosméticos; na chinesa, pequenos eletrodomésticos, brinquedos e artigos decorativos. O texto, contudo, limita-se a apresentar “recomendações”, sem estabelecer um prazo para a implementação, enquanto a negociação de um acordo comercial mais amplo foi adiada para o próximo ano. A principal novidade ficou por conta da inteligência artificial (IA). Ambos os países concordaram em manter um diálogo sobre os riscos e benefícios da tecnologia, com uma nova rodada prevista para novembro, além de criar um canal de comunicação para tratar de incidentes relacionados à IA. Curiosamente, Washington adotou o termo “superinteligência”, enquanto Pequim manteve a referência genérica à IA.
A avaliação predominante é de que Jinping saiu da reunião em situação mais confortável. O encontro revelou a distância que ainda separa as duas potências e sugeriu que Pequim tem poucos incentivos para conceder a Trump vitórias expressivas antes das eleições legislativas de novembro. O gigante asiático também preservou seus principais instrumentos de pressão. O seu domínio na produção de terras raras continua sendo um trunfo estratégico, enquanto a soja, uma das principais exportações norte-americanas, ficou de fora da lista chinesa de produtos beneficiados pelos cortes tarifários. Com isso, as compras chinesas permanecem vulneráveis a eventuais deteriorações nas relações bilaterais, um cenário de interesse direto para o Brasil, principal fornecedor alternativo do produto.
No campo geopolítico, Pequim deu poucos sinais de que pretende contribuir para o fim da guerra no Irã. Em relação a Taiwan, Trump evitou abordar publicamente a questão, ao contrário do que fez em maio, quando classificou o pacote de US$ 14 bilhões em armas para a ilha, ainda pendente, como uma “moeda de troca”. Ainda assim, o presidente americano obteve algumas concessões. A China propôs reduzir tarifas sobre produtos agrícolas estadunidenses, de milho a laticínios, uma medida que beneficia os agricultores do país do Norte, segmento importante de sua base eleitoral.
A ausência de uma delegação de executivos chineses também lança dúvidas sobre a viabilidade do esquema de investimentos recíprocos anunciado em maio. O calendário de encontros, por sua vez, assegura a continuidade do diálogo: Trump e Jinping devem voltar a se reunir na cúpula da Cooperação Econômica Ásia–Pacífico (APEC), em Shenzhen, em novembro, e no encontro do G20, em Miami, em dezembro.
Em síntese, a cúpula contribuiu para estabilizar as relações bilaterais e produziu gestos simbólicos de aproximação, mas deixou para depois as principais divergências — um acordo comercial abrangente, o controle das terras raras, Taiwan e a guerra no Irã. Mais uma vez, Pequim parece ter saído do encontro com maior margem de manobra, enquanto Washington permanece à espera de concessões mais substanciais.













