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ARTIGO TRIBUTÁRIO

Reforma Tributária e holding para empresas de tecnologia: o que revisar na prática

IBS e CBS exigem revisão tributária, societária e operacional

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Reforma Tributária e holding para empresas de tecnologia: o que revisar na prática Foto: Kindel Media / Pexels

A Reforma Tributária muda de forma relevante a estrutura fiscal das empresas de tecnologia, especialmente negócios de software, SaaS, plataformas digitais, inteligência artificial e startups.

Com a implementação do IBS e da CBS, o planejamento deixa de depender apenas de ISS, PIS e Cofins e passa a exigir uma análise mais ampla da operação.

Para empresas de tecnologia, essa revisão deve envolver não apenas a tributação sobre as receitas, mas também a estrutura societária, a propriedade intelectual, os contratos e uma eventual holding.

A principal pergunta passa a ser:

a estrutura atual da empresa continuará eficiente com IBS e CBS?

O que muda para empresas de tecnologia?

A Reforma Tributária cria um modelo mais uniforme de tributação sobre bens, serviços, direitos e ativos intangíveis.

Na prática, operações envolvendo:

  1. software;
  2. SaaS;
  3. licenciamento;
  4. plataformas digitais;
  5. inteligência artificial;
  6. serviços de tecnologia;
  7. cloud computing;
  8. marketplaces;
  9. cessão de direitos;

passam a ser analisadas dentro da lógica do IBS e da CBS.

Para empresas de tecnologia, três pontos merecem atenção imediata:

tributação no destino, créditos tributários e estrutura societária.

1. A localização do cliente passa a ter mais relevância

Muitas empresas de tecnologia vendem para clientes espalhados pelo Brasil sem possuir unidades físicas nesses locais.

Com o IBS, a tributação está ligada ao destino da operação.

Isso exige revisar:

  1. cadastro dos clientes;
  2. endereço do adquirente;
  3. contratos;
  4. emissão dos documentos fiscais;
  5. sistemas de faturamento;
  6. regras de cobrança.

Uma empresa SaaS que atende clientes em vários Estados não poderá tratar a Reforma apenas como uma alteração de alíquota.

Será necessário adaptar processos e sistemas.

2. Créditos de IBS e CBS precisam entrar na conta

Outra mudança importante está na não cumulatividade.

Empresas de tecnologia deverão analisar quais despesas podem gerar créditos de IBS e CBS.

Entre os gastos que merecem análise estão:

  1. serviços de nuvem;
  2. infraestrutura tecnológica;
  3. ferramentas de software;
  4. licenças;
  5. fornecedores;
  6. marketing;
  7. serviços profissionais;
  8. equipamentos.

Isso significa que a análise não deve considerar apenas o imposto sobre a receita.

A conta passa a ser:

IBS/CBS sobre vendas – créditos das aquisições = carga efetiva.

Duas empresas com o mesmo faturamento podem apresentar cargas tributárias muito diferentes.

3. Empresas com folha alta precisam simular o impacto

Esse é um dos pontos mais relevantes para empresas de tecnologia.

Muitos negócios têm grande parte do custo concentrado em folha de pagamento.

Desenvolvedores, designers, engenheiros, product managers, vendedores e equipes de suporte podem representar a maior despesa da operação.

Folha de pagamento, porém, não gera crédito de IBS e CBS da mesma forma que uma aquisição de fornecedor tributada.

Por isso, empresas intensivas em mão de obra precisam simular sua carga efetiva.

Exemplo:

Uma empresa SaaS fatura R$ 10 milhões por ano.

Se possui grande volume de cloud, softwares e serviços terceirizados, poderá ter maior geração de créditos.

Se possui praticamente todo seu custo concentrado em folha própria, poderá ter menor volume de créditos.

Esse diagnóstico deve ser realizado antes de definir preço e margem para os próximos anos.

Onde entra a holding?

A holding pode continuar sendo uma ferramenta importante para empresas de tecnologia.

Mas sua criação deve ter finalidade econômica clara.

Ela pode ser utilizada para:

  1. controlar empresas do grupo;
  2. organizar os sócios;
  3. facilitar novos investimentos;
  4. separar diferentes negócios;
  5. organizar propriedade intelectual;
  6. preparar uma futura venda;
  7. estruturar sucessão;
  8. concentrar participações societárias.

O erro é criar uma holding apenas porque se acredita que ela automaticamente reduzirá impostos.

Nem sempre isso ocorre.

Holding de participações e holding operacional são diferentes

Imagine dois cenários.

Cenário 1

Fundadores↓Holding↓Empresa SaaSEmpresa de IAEmpresa de consultoria

Nesse caso, a holding tem função principalmente societária.

Cenário 2

Fundadores↓Holding↓A holding possui o software e cobra licença da empresa operacional.

Aqui já existe uma operação econômica entre empresas relacionadas.

Nesse segundo modelo, será necessário analisar:

  1. IBS e CBS;
  2. IRPJ e CSLL;
  3. contratos;
  4. valores de licenciamento;
  5. propriedade intelectual;
  6. substância econômica;
  7. contabilização.

A estrutura precisa existir de fato, e não apenas no contrato social.

Propriedade intelectual precisa ser revisada

Para muitas empresas de tecnologia, o principal ativo não é um imóvel ou equipamento.

É o software.

Por isso, antes de qualquer reorganização societária, a empresa deve verificar:

  1. quem é proprietário do código-fonte;
  2. se os desenvolvedores cederam formalmente os direitos;
  3. quem possui a marca;
  4. quem possui os domínios;
  5. quem detém os direitos sobre algoritmos e sistemas;
  6. se existem contratos de cessão de propriedade intelectual.

Esse ponto é especialmente importante para startups que pretendem receber investimento.

Durante uma due diligence, problemas na titularidade do software podem reduzir valuation ou até impedir uma operação.

Exemplo prático

Considere uma empresa SaaS com:

  1. faturamento anual de R$ 12 milhões;
  2. 80% dos clientes B2B;
  3. folha de R$ 4 milhões;
  4. cloud e infraestrutura de R$ 1 milhão;
  5. software próprio;
  6. dois fundadores;
  7. possibilidade de receber investimento.

O diagnóstico deveria responder:

1. Qual será a carga de IBS e CBS?

2. Quanto a empresa terá de créditos?

3. A folha elevada reduzirá o potencial de créditos?

4. O software pertence formalmente à empresa?

5. Faz sentido criar uma holding?

6. A holding será apenas societária ou terá atividade operacional?

7. A estrutura está preparada para entrada de investidor?

8. A empresa está preparada para uma futura venda?

Essas perguntas são mais importantes do que simplesmente decidir abrir uma nova empresa.

B2B e B2C precisam ser analisados separadamente

Empresas de tecnologia também devem separar clientes empresariais de consumidores finais.

No B2B, o crédito tributário pode influenciar a decisão do cliente.

No B2C, o consumidor final não aproveita créditos.

Isso significa que o impacto tributário pode ser diferente sobre:

  1. preço;
  2. margem;
  3. competitividade;
  4. negociação comercial.

Uma empresa que atua nos dois mercados deve fazer simulações separadas.

Startups devem revisar a estrutura antes do investimento

Para startups, o melhor momento para organizar a estrutura societária é antes da rodada.

O checklist deve incluir:

  1. cap table;
  2. acordo de sócios;
  3. vesting;
  4. stock options;
  5. phantom shares;
  6. contratos com desenvolvedores;
  7. propriedade intelectual;
  8. marca;
  9. software;
  10. empresas relacionadas;
  11. estrutura da holding.

Quanto mais cedo a estrutura for organizada, menor tende a ser o custo de reorganização futura.

Checklist prático para empresas de tecnologia

Antes de 2027, empresas de tecnologia deveriam revisar pelo menos os seguintes pontos:

  1. regime tributário atual;
  2. projeção de IBS e CBS;
  3. gastos que podem gerar créditos;
  4. peso da folha de pagamento;
  5. clientes B2B e B2C;
  6. Estados onde estão os clientes;
  7. contratos comerciais;
  8. emissão fiscal;
  9. software e propriedade intelectual;
  10. marcas e direitos;
  11. estrutura societária;
  12. participação dos sócios;
  13. empresas do grupo;
  14. operações entre empresas relacionadas;
  15. possibilidade de investimento;
  16. possibilidade de venda futura.

Com essas informações, é possível comparar cenários.

Cenário A

Manter a estrutura atual.

Cenário B

Criar uma holding de participações.

Cenário C

Separar diferentes unidades de negócio.

Cenário D

Separar propriedade intelectual e operação, quando houver fundamento econômico.

A melhor estrutura não será necessariamente a mais complexa.

Será aquela que fizer sentido tributário, societário e operacional.

Reforma Tributária exige planejamento antes do crescimento

Empresas de tecnologia costumam pensar em escalabilidade do produto.

Mas também precisam pensar na escalabilidade da estrutura societária e tributária.

Uma empresa que pretende crescer, receber investidores ou vender sua operação precisa organizar desde cedo:

tributação, contratos, propriedade intelectual e participação societária.

A Reforma Tributária cria uma oportunidade importante para essa revisão.

O objetivo não deve ser simplesmente abrir uma holding.

O objetivo deve ser responder:

qual estrutura permitirá que a empresa cresça pagando corretamente seus tributos, protegendo seus ativos e facilitando novos investimentos?

Essa é a discussão prática que empresas de tecnologia precisam começar agora.

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