Uma empresa investe em anúncios no Instagram, recebe dezenas de mensagens pelo WhatsApp e termina a semana comemorando o aumento das vendas. O dinheiro entra pelo Pix, os pedidos são entregues e a sensação é de que a estratégia funcionou.
Mas existe uma pergunta que nem sempre aparece nessa conversa: quanto custou conquistar aqueles clientes?
É possível que o empresário saiba exatamente quantas pessoas visualizaram suas publicações, quantos seguidores ganhou e quantas mensagens recebeu. Quando o assunto chega ao financeiro, porém, os números nem sempre conversam.
O marketing apresenta um resultado. O comercial apresenta outro. A contabilidade recebe as informações depois, muitas vezes sem conseguir identificar a origem das receitas ou relacionar determinados gastos às ações que os motivaram.
Essa desconexão é um problema especialmente relevante para pequenos negócios, que passaram a utilizar ferramentas sofisticadas de divulgação sem necessariamente desenvolver a mesma maturidade em seus controles financeiros.
E não estamos falando apenas de tecnologia.
Estamos falando da maneira como as empresas organizam seus negócios.
A transformação digital aconteceu antes da organização dos processos
O pequeno empreendedor brasileiro aprendeu rapidamente a utilizar ferramentas digitais para vender.
Hoje, é possível divulgar produtos, conversar com consumidores, receber pagamentos e acompanhar pedidos utilizando praticamente apenas um celular.
Esse modelo reduziu barreiras de entrada e permitiu que empresas com estruturas pequenas alcançassem consumidores que antes dependeriam de operações comerciais mais complexas.
A transformação também pode ser observada no crescimento do social commerce no Brasil, que vem aproximando a descoberta de produtos nas redes sociais da decisão de compra e do pagamento.
Mas essa evolução também concentrou muitas responsabilidades nas mãos de poucas pessoas.
Uma pesquisa do Sebrae, realizada em parceria com o E-Commerce Brasil e divulgada em julho de 2026, ajuda a entender essa realidade.
O levantamento Radar Mercado Digital 2026, que ouviu 3.081 empresários, identificou que 59,2 por cento dos pequenos negócios pesquisados concentram a operação de comércio eletrônico em uma única pessoa.
Entre os microempreendedores individuais, esse percentual chega a 76,2 por cento.
É um retrato importante.
Em muitos negócios, a pessoa responsável por criar publicações também responde a clientes, acompanha pagamentos, negocia fornecedores e organiza pedidos.
O crescimento das vendas não significa necessariamente que essa estrutura esteja preparada para lidar com o aumento da operação.
Na prática, o empresário pode ganhar clientes mais rapidamente do que consegue organizar as informações sobre eles.
O problema começa quando cada área apresenta um número diferente
Imagine uma pequena loja que utiliza três canais para vender: Instagram, WhatsApp e um marketplace.
Durante determinado mês, a empresa registra R$ 30 mil em vendas.
No relatório de marketing, os anúncios aparecem como responsáveis por centenas de contatos. No WhatsApp, há diversas negociações concluídas. No marketplace, aparecem pedidos originados pela própria plataforma.
O problema é que o cliente pode ter descoberto a loja no Instagram, pesquisado o produto posteriormente e concluído a compra pelo WhatsApp.
Qual canal deve receber o crédito pela venda?
Essa pergunta não tem uma resposta universal. A atribuição depende do objetivo da análise e das informações disponíveis.
O erro está em apresentar qualquer uma dessas métricas como se fosse a verdade completa sobre o resultado comercial.
Curtidas não são vendas. Conversas iniciadas não são necessariamente novos clientes. Receita não é sinônimo de lucro.
E o volume de pagamentos recebidos, isoladamente, não explica quanto a empresa gastou para gerar aquelas transações.
Quando marketing e financeiro trabalham com definições diferentes, o empresário perde a capacidade de avaliar suas decisões.
Uma campanha pode parecer excelente porque gera muitos contatos, mas consumir boa parte da margem disponível. Outra pode produzir menos mensagens e conquistar clientes que compram com maior frequência.
Sem organização, essas diferenças passam despercebidas.
A contabilidade precisa entrar na conversa antes do fechamento do mês
Tradicionalmente, muitos empresários procuram o contador para cumprir obrigações fiscais, organizar documentos e entender questões tributárias.
Essas atividades continuam fundamentais.
Mas a digitalização das vendas criou uma oportunidade para que a contabilidade participe também das decisões de gestão.
Quando uma empresa utiliza mídia paga, influenciadores, plataformas de comércio eletrônico e intermediadores de pagamento, surgem diferentes informações que precisam ser conciliadas.
O investimento realizado em publicidade representa uma despesa da operação. As plataformas podem cobrar comissões. Os pagamentos podem ter tarifas. Algumas campanhas envolvem descontos, frete subsidiado ou remuneração variável para parceiros comerciais.
Nenhum desses elementos deveria ser ignorado na avaliação do desempenho.
Uma venda de R$ 200 não representa automaticamente R$ 200 disponíveis para a empresa.
É necessário considerar os custos diretamente associados à operação, os tributos aplicáveis, as despesas e a estrutura necessária para atender o cliente.
A análise gerencial pode organizar esses componentes de diferentes maneiras, desde que os critérios sejam consistentes e não se confundam com os registros exigidos pelas normas contábeis.
O profissional contábil pode ajudar o empresário a compreender a relação entre crescimento comercial, margem de contribuição e geração de caixa.
Mas, para isso, precisa receber informações confiáveis.
E essa responsabilidade começa muito antes do envio dos documentos para o escritório.
O marketing precisa aprender a falar a linguagem do financeiro
Durante anos, o mercado de publicidade digital se desenvolveu apoiado em indicadores de desempenho.
Alcance, impressões, visualizações, cliques, custo por contato e conversões passaram a fazer parte da rotina de empresas e agências.
Essas métricas são importantes. Permitem acompanhar campanhas, identificar problemas e tomar decisões sobre distribuição de mídia.
Entretanto, nenhuma delas substitui a análise financeira.
Uma campanha pode apresentar um custo por contato baixo e, ainda assim, gerar vendas pouco rentáveis.
Da mesma forma, uma campanha aparentemente cara pode conquistar clientes que permanecem comprando durante meses.
A avaliação depende do modelo de negócio.
Uma empresa que vende um produto de compra única precisa observar indicadores diferentes daqueles utilizados por um serviço de assinatura ou por um fornecedor com contratos recorrentes.
O desafio está em aproximar os dados.
Marketing precisa compreender margem, custos e capacidade operacional. O financeiro precisa entender de onde vêm os clientes e como as campanhas funcionam.
E o contador pode contribuir para estabelecer critérios que ajudem a transformar essas informações em decisões.
Não se trata de exigir que um profissional assuma a função do outro.
Trata-se de impedir que cada área trabalhe com uma versão diferente do negócio.
A influência digital acrescentou outra camada de complexidade
A utilização de influenciadores e criadores de conteúdo tornou essa integração ainda mais necessária.
Uma campanha pode envolver remuneração fixa, produção audiovisual, produtos enviados, links de indicação e pagamentos associados ao desempenho comercial.
Cada modalidade tem características próprias.
Quando uma empresa contrata um influenciador, por exemplo, é importante definir o serviço prestado, o período da campanha, os materiais previstos e a forma de acompanhamento dos resultados.
Do ponto de vista comercial, a empresa precisa compreender o objetivo da contratação.
Do ponto de vista financeiro, é necessário identificar os valores envolvidos e registrar adequadamente os gastos, conforme sua natureza e a documentação disponível.
O próprio processo de calcular o cachê de um influenciador envolve fatores como custos de produção, alcance, direitos de uso e exclusividade. São elementos que também precisam ser considerados pela empresa contratante ao avaliar o investimento.
É importante diferenciar resultados de comunicação de resultados comerciais.
Uma campanha pode aumentar a procura pela marca sem produzir vendas imediatas. Outra pode gerar vendas diretamente identificáveis por meio de um código promocional.
Ambos os resultados podem ter valor para o negócio, mas não devem ser apresentados como se fossem equivalentes.
Em minha atuação com mídia e projetos digitais, considero essa distinção especialmente importante.
O problema não está em investir em influenciadores ou em publicidade. Está em realizar esses investimentos sem definir previamente como seus resultados serão avaliados.













