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Tio Sam crê no fim do mundo

Se houvéssemos realizado algumas lições lamentavelmente adiadas, certamente não estaríamos tão preocupados com a incontinência monetária do FED e talvez nem precisássemos aumentar alíquotas de importação.

05/10/2012 14:38:27

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Embora se inspirem com ênfase no pensamento liberal, os Estados Unidos não têm hesitado em adotar política claramente keynesiana, de intervenção estatal na economia, ao imprimir dólares em profusão para tentar reaquecer o nível de atividade. Como sua inflação é muito baixa, o FED, seu banco central, tem fabricado dinheiro para financiar hipotecas, visando à retomada do mercado imobiliário, gerador de mão de obra intensiva e com efeito em cascata em numerosos segmentos.

Essa prática vem causando a desvalorização do Dólar em relação às demais moedas, reduzindo a competitividade de produtos importados, inclusive do Brasil. Em contrapartida, os norte-americanos mantêm subsídios agrícolas, sobretaxam alguns de nossos produtos, como o etanol, e transformam quase em incidente diplomático qualquer medida de defesa comercial, como a recente elevação de alíquotas de importação brasileiras, adotada, aliás, dentro das margens permitidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).      

Sim, é dessa questão dialética que a presidenta Dilma Rousseff estava falando ao discursar na 67ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Ela estava certa ao afirmar que a política expansionista dos bancos centrais de países desenvolvidos afeta as economias emergentes e que a estratégia monetária não pode ser a única resposta à letargia econômica e ao desemprego. Também acertou ao invocar o direito à defesa comercial e ao rejeitar a afirmação de que exercitá-lo é protecionismo.

Ora, se os norte-americanos permitem que o punhal imediatista do economista Maynard Keynes, inspirado na frase “no longo prazo todos vamos morrer”, seja cravado no âmago do liberalismo de Adam Smith, imprimindo montanhas de dólares, o Brasil não pode dar-se ao luxo. Por maiores que sejam os acidentes de percurso representados pela duradoura crise mundial, já esgotamos nossas medidas anticíclicas, como estímulos tributários, flexibilização dos compulsórios bancários e desoneração da folha de pagamentos de 40 setores. Não podemos imprimir dinheiro sem lastro, sem pensar no recrudescimento inflacionário, como se aceitássemos Keynes incondicionalmente ou crêssemos na data fatal da Profecia Maia, planejando a economia só até 21 de dezembro...

O mais irônico é que se houvéssemos realizado algumas lições lamentavelmente adiadas, certamente não estaríamos tão preocupados com a incontinência monetária do FED e talvez nem precisássemos aumentar alíquotas de importação. Reforma tributária, menos burocracia, mais segurança jurídica, trâmites eficazes no comércio exterior e ações como a liquidação dos créditos tributários legítimos das empresas, dentre outras medidas estruturais, são as bases do chamado espírito animal dos empresários e alicerces sólidos da competitividade. Tivéssemos feito isso, a presidenta Dilma não precisaria assumir posição tão corajosa na tribuna da ONU, pois estaríamos nadando de braçada na enxurrada de dólares.

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