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IA na contabilidade: ferramenta real ou hype por enquanto?

Eduardo Nagata

Eduardo Nagata

Iniciante DIVISÃO 1 , Engenheiro(a) Software
há 17 horas Domingo | 1 março 2026 | 21:12

Tenho acompanhado a discussão sobre IA aplicada à contabilidade e noto uma tensão interessante: de um lado, promessas enormes de automação. Do outro, experiências reais de imprecisão que tornam a ferramenta não confiável para uso profissional, especialmente num domínio onde erro tem consequência fiscal real.

Minha percepção de fora da profissão é que o problema não é a IA em si, mas como ela está sendo aplicada, geralmente como uma camada genérica por cima de processos que exigem contexto específico da empresa, do regime tributário, da operação. Uma IA que não sabe quem é o cliente, qual é o regime, qual é a UF de destino vai errar, não porque é burra, mas porque está operando sem o contexto que qualquer contador experiente teria automaticamente.
Mas além da precisão, acho que tem algo maior acontecendo que vale discutir.

A IA generativa representa uma mudança de paradigma na forma como interagimos com software , e acredito que isso tem implicações diretas para o trabalho do contador. Hoje, penso que usar um sistema contábil significa navegar por telas, menus, campos, abas, uma lógica determinística rígida onde cada ação exige um clique específico numa sequência específica. O sistema só faz o que você explicitamente manda, da forma que ele espera ser mandado, atendendo validações rígidas.

O novo paradigma é diferente. Em vez de você se adaptar à lógica do sistema, ele entende o que você quer em linguagem natural, e orquestra as automações necessárias para chegar lá. Em vez de "abrir módulo de NF-e, selecionar destinatário, preencher produto, configurar tributação, emitir. Você diz "emite uma nota de 500 kg de soja para a Cooperativa X" e o sistema, com contexto completo daquela empresa, daquele cliente, daquela operação, faz o resto, incluindo decidir tributação, CFOP, CST, e explica o que fez.

Isso não é só conveniência. É uma reconfiguração de onde fica o trabalho intelectual. O que hoje exige que o contador navegue por complexidade de interface passa a ser responsabilidade do sistema. O contador foca no julgamento, que é o que nenhum sistema vai substituir.
A pergunta que me interessa genuinamente é se contadores enxergam isso como oportunidade ou como ameaça , e onde estão os limites reais dessa automação no contexto brasileiro, que tem uma das legislações fiscais mais complexas do mundo.

Algumas perguntas específicas:
Quais tarefas da rotina mais se beneficiariam desse tipo de automação orientada por linguagem natural , não só digitação, mas raciocínio sobre casos específicos?

Onde a imprecisão da IA já causou problema real ou quase causou?

Existe alguma tarefa que vocês acham que IA nunca vai conseguir fazer bem no contexto contábil brasileiro, e por quê?

Existem problemas que você acha que software convencional ainda não resolve bem e que você acha que uma IA poderia performar muito bem?

Particularmente, penso que a IA não irá retirar o humano do loop, especialmente em domínios sérios como este em que você precisa de um humano para culpar em caso de erros, mas vejo como muito do trabalho pode migrar de tarefas manuais repetitivas intelectualmente pouco exigentes para atividades intelectuais de maior valor. Por exemplo, ao invés de navegar por 5 telas em sequência específica e mover o cursor para selecionar campo e digitar coisas em cada uma delas, pode-se expressar em português claro o que precisa ser feito, e o agente apenas pede para você aprovar a execução da ação. Eu já vejo algo parecido acontecendo com meu trabalho como desenvolvedor de software, em que apenas expresso em português uma sequência de tarefas que precisam ser realizadas em uma base de código em N arquivos diferentes, ela gera um plano de ações e apenas pede a minha aprovação. Eu saio de um papel árduo de digitador de código em uma sintaxe que precisa estar rigidamente correta, para um papel de planejamento de alto nível e revisão. Agora, se a IA que conhece o contexto do trabalho pode ser aplicada de maneira tão transformadora em uma área complexa como desenvolvimento de software, não consigo pensar em como ela não seria igualmente transformadora na rotina de quem precisa navegar pela complexidade do domínio contábil e fiscal no Brasil, algo que suspeito que não esteja ocorrendo com tanta profundidade devido a sistemas legados não suportarem a IA nativamente, exceto como uma feature superficial.

Não sou contabilista, estou construindo software nessa área e acredito que estamos no início de um novo paradigma de interação com sistemas. Gostaria de entender como vocês imaginam a materialização do potencial máximo da IA em sua rotina de trabalho, se isso já aconteceu ou é apenas uma promessa de difícil integração com sistemas atuais.  Qualquer perspectiva é bem-vinda.

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