As falhas no sistema do Nota Legal não impediram boa parte dos contribuintes de aproveitar os benefícios prometidos pelo governo. Com o fim do prazo, na última sexta-feira, para garantir os descontos nos tributos de 2011, a Secretaria de Fazenda divulgou ontem o balanço do segundo ano do programa. O número de pessoas que usarão os créditos acumulados para abatimento nos impostos sobre Propriedade de Veículos Automotores (
IPVA) ou Predial e Territorial Urbano (IPTU) cresceu quase seis vezes: saltou de 18.295, em 2010, para 106.216, este ano, um aumento de 480%.
Mesmo com o avanço, o total de beneficiados é considerado pequeno dentro do universo dos que tinham direito a usufruir dos descontos. De acordo com a Secretaria de Fazenda, 1,4 milhão de pessoas pediram em algum momento, desde o início do programa,
nota fiscal com o número do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF). Desses, 7,5% utilizarão créditos em 2011, segundo os números divulgados pelo governo. Ainda com base no balanço oficial, cerca de 81,4% dos participantes sequer chegaram a se cadastrar no site
www.notalegal.df.gov.br.
ResultadoA soma dos créditos distribuídos apresentou crescimento expressivo de um ano para o outro. Pouco mais de R$ 23 milhões recolhidos pela Receita local serão devolvidos aos cidadãos em forma de descontos em 2011. O montante é 4.893% superior aos R$ 461,6 mil registrados pelo sistema em 2010. A quantidade de cupons fiscais emitidos com CPF cresceu 13 vezes e ultrapassou os 11 milhões. Esse resultado decorre do aumento do número de estabelecimentos inscritos no programa e obrigados a lançar o Nota Legal, que passou de 28.849 para 60.202, um crescimento de 108%.
Os contribuintes tiveram um mês para informar ao governo como usariam os créditos acumulados até novembro do ano passado. O prazo terminou na última sexta-feira. Pelas regras do programa, os valores processados em transações feitas a partir de dezembro de 2010 só valerão para redução de tributos em 2012. Os créditos têm dois anos de validade. Quem deixou passar o período de indicação tem, portanto, a possibilidade de usá-los no ano que vem. “Um mês foi mais do que suficiente”, afirmou o subsecretário de Receita do DF, Francisco Otávio Moreira.
Sobre as reclamações de lentidão no site no último dia do prazo estipulado, Moreira disse que o problema era previsto e que o alerta em relação à sobrecarga no sistema foi feito com antecedência. O subsecretário avaliou como positivo o aumento do número de participantes e de pessoas que garantiram os descontos. No entanto, ele comentou que, por algum motivo, muita gente ignorou os créditos existentes. “Talvez porque o valor era muito pequeno ou porque a pessoa quis mesmo acumular para usar no ano que vem”, avaliou.
Inspiração paulistaO Governo do Distrito Federal criou o Nota Legal em junho de 2008. A Lei nº 4.159/08 foi regulamentada dois meses depois, tendo como inspiração o Nota Fiscal Paulista. O programa, porém, só engatou após a primeira campanha de divulgação, no segundo semestre de 2009. No ano passado, apenas 5% das 365.890 pessoas que até então tinha pedido a nota com CPF usaram os créditos. “Aos poucos, o cidadão está percebendo que a iniciativa beneficia a todos. Não se trata apenas de um programa arrecadatório ou para combater a sonegação”, afirmou o subsecretário.
Assim como em 2010, a maioria dos contribuintes preferiu pagar menos no IPVA. Dos créditos distribuídos este ano, 75% serão aproveitados para abatimento nesse imposto. A quantidade de veículos indicados (75.290) superou em quase quatro vezes o de imóveis (20.245). O beneficiado com os descontos não precisava ter sido o mesmo que pediu a nota com CPF. O participante podia indicar qualquer carro e/ou o imóvel, inclusive mais de um. Quem tivesse alguma dívida com a Receita local estava impedido de aproveitar o benefício.
FatoresHá contribuintes que acumularam mais de R$ 1 mil em créditos ao longo de 2010 e quitaram pelo menos um imposto. Para chegar ao valor processado em cada transação, o governo leva em conta três fatores: a arrecadação da empresa naquele mês, a quantidade de pessoas que pediram a nota com CPF no estabelecimento e o valor da compra. Apesar de ser orientação da Secretaria de Fazenda e de parte dos empresários, os funcionários não são obrigados a lembrar os clientes da existência do Nota Legal. Cabe ao interessado exigir o cupom.
A estudante Larissa Gusmão, 21 anos, não acreditou no programa quando ele foi lançado. Empolgou-se com a ideia somente depois de passar a acompanhar os créditos no site oficial. “Comecei a pedir em todo lugar: restaurante, farmácia, loja de roupa”, enumerou. Até novembro do ano passado, ela acumulou quase R$ 120, o tamanho do desconto que terá no IPVA do próprio carro. “Adorei”, resumiu a jovem, que não vai parar de pedir a Nota Legal e agora incentiva o namorado, Cristiano Lucena, 21, a fazer o mesmo. “Vou seguir o exemplo dela”, adiantou o também estudante.
Morador de Montalvânia, no interior de Minas Gerais, o técnico em engenharia Sérgio Montalvão, 35 anos, viaja a Brasília com bastante frequência, para ver o filho de 6 anos. Soube do Nota Legal por um amigo, que garantiu R$ 200 de desconto no IPVA, e decidiu pedir o cupom com CPF em toda compra que fizer na capital. “Aliás, acabei de pedir um”, contou ele, saindo de uma loja de calçados. “Gostei desse negócio. O que eu conseguir juntar durante o ano vou passar para o meu irmão que mora aqui. Daí ele usa para pagar menos de IPVA no ano que vem”, completou.
ComparaçãoO subsecretário de Receita, Francisco Otávio Moreira, lembra que os cerca de 1,4 milhão de participantes representam o total de pessoas que pediram CPF na nota desde o início do programa e que esse contigente pode incluir, por exemplo, quem não mora mais em Brasília ou quem já tenha aproveitado todos os créditos acumulados. Na avaliação dele, portanto, para comparar o número de participantes que usaram os créditos em relação ao universo dos que pediram Nota Legal seria necessário levar em conta os dados referentes somente ao período entre 2010 e 2011, informação não fornecida ontem pela Secretaria de Fazenda.
Sem dados para medir o impactoEm entrevista ao Correio no mês passado, o secretário de Fazenda, Valdir Moysés Simão, confirmou que o governo daria continuidade ao Nota Legal e trabalharia para aprovar o projeto de lei que prevê premiação em dinheiro entre os participantes do programa. Porém informou que pediria à equipe técnica uma revisão da proposta encaminhada à Câmara Legislativa no fim de 2010. Simão considerou o programa novo e se mostrou preocupado com a falta de estudo para avaliar a eficiência da iniciativa. Segundo ele, o governo ainda não tem informações precisas para saber o impacto do Nota Legal na arrecadação de impostos ou no combate à sonegação no Distrito Federal.
Tira-dúvidasAinda posso garantir descontos este ano? » Não. O prazo venceu na última sexta-feira e não será prorrogado. Os créditos acumulados e não utilizados poderão ser aproveitados em 2012, caso estejam dentro da validade de dois anos.
De que forma o abatimento será efetivado?» Os créditos do Nota Legal estarão discriminados no carnê do IPVA ou do IPTU, que o governo promete enviar até 20 dias antes do vencimento da primeira parcela.
Como participar do programa daqui para frente?» Basta pedir, no ato de cada compra, que o número do CPF seja incluído na nota fiscal. Atualmente, 60.202 empresas dos setores de comércio e serviços participam do programa. Até o fim deste ano, a intenção do governo é incluir todo o varejo.
Como acompanhar os créditos?» É preciso estar cadastrado no site www.notalegal.df.gov.br. Com número de CPF e senha, você terá acesso a uma área restrita. Os créditos são computados em até dois meses após a compra. Caso isso não ocorra, é preciso registrar uma reclamação no próprio site.
Por que nem todas as notas são computadas?» Porque as empresas não repassam os dados ao governo, seja por problemas técnicos ou porque sonegam. A Secretaria de Fazenda diz que depende do cidadão para poder penalizar os estabelecimentos que não enviam as informações. Cada nota omitida rende multa de R$ 50.
É necessário guardar os cupons fiscais?» A decisão fica a cargo do contribuinte, mas a sugestão é que sim. Se os créditos não forem processados no sistema no tempo previsto, o mais provável é que o participante seja orientado a levar o cupom com CPF até uma agência da Receita para comprovar a transação e garantir o benefício.
Fonte: Correio Braziliense