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ADR mais barato

A adoção do padrão internacional de contabilidade e a criação Formulário de Referência reduziram as exigências regulatórias e os custos para ter ações listadas nos Estados Unidos, além do Brasil

10/11/2011 09:00:59

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Está mais fácil e mais barato para as empresas brasileiras terem seus papéis negociados nos Estados Unidos, seja na Bolsa de Nova York (Nyse) ou na Nasdaq.

A adoção completa do padrão internacional de contabilidade IFRS e a criação Formulário de Referência como novo documento de informações anuais das empresas abertas, duas medidas que passaram a valer em 2010, reduziram de maneira significativa o vão de exigências regulatórias - e consequentemente os custos - para se ter ações listadas nos EUA, além do Brasil.

Essa é a avaliação de Alexandre Ibrahim, vice-presidente e chefe regional para América Latina, Caribe e Bermudas da Nyse Euronext. Ele recebeu o Valor na sede da companhia, localizada no sul de Manhattan, em Nova York, que agora conta com segurança reforçada em seu entorno por conta do movimento Ocuppem Wall Street, cujas ações estão concentradas numa praça a duas quadras de distância.

Para Ibrahim, as mudanças regulatórias devem contribuir para aumentar a lista das atuais 28 empresas que possuem recibos de ações - American Depositary Receipts (ADRs) - negociados no mercado americano, sendo apenas a Net na Nasdaq.

"O IFRS é aceito para companhias estrangeiras aqui nos EUA. E o Formulário de Referência é bastante semelhante, em termos de informações pedidas, ao relatório 20-F, exigido pela Securities and Exchange Commission [órgão que regula o mercado de capitais americano]", diz ele, que destaca ainda o fato de que a lei Sarbanes-Oxley, vista no Brasil como um grande entrave para se abrir o capital nos Estados Unidos, ter sido flexibilizada duas vezes desde sua edição em 2002.

Atualmente, Ibrahim diz que existem nove empresas latino-americanas na fila para fazer oferta inicial de ações com dupla listagem em seus países de origem e também na Nyse, sendo uma delas brasileira. Metade das companhias já teria lançado os papéis, não fossem as condições de volatilidade de mercado. "Muitas estão com as malas prontas", afirma Ibrahim, destacando que as companhias são de países como Chile, Peru, México e Colômbia, e de setores que variam de agronegócios e infraestrutura a tecnologia da informação e serviços financeiros.

Entre as brasileiras já abertas, ele lembra que Usiminas e JBS têm planos anunciados para ter ADRs de nível 2 negociados na Bolsa de Nova York. Esse número "2" significa que elas devem apenas listar os papéis, sem fazer captação de recursos. "Mas estamos trabalhando com várias outras para fazer essa listagem de ADR nível 2", acrescenta. Ele defende a opção para as empresas que querem ter uma base mais diversificada de acionistas e mais liquidez para seus papéis. Recentemente, a Eletrobrás fez esse tipo de registro.

A Gafisa é a única incorporadora imobiliária brasileira com ADRs e seus papéis movimentaram uma média diária de R$ 58 milhões nos EUA e de R$ 55 milhões no Brasil em 2011 até semana passada, totalizando um giro de R$ 113 milhões. A PDG, sua concorrente de maior porte e que também possui uma base pulverizada de acionistas, tem negociação diária de R$ 100 milhões neste ano. A diferença é que o giro diário representa 4,25% do valor de mercado total da Gafisa, enquanto no caso da PDG relação é de 1,25%.

Sobre o porte das companhias que podem se listar em Nova York, Ibrahim faz questão de ressaltar que a Nyse é uma bolsa orientada para o que ele considera como pequenas e médias empresas - ou seja, que possuem valor de mercado inferior a US$ 5 bilhões.

Segundo o executivo, um terço das companhias listadas naquele mercado tem valor de mercado inferior a US$ 1 bilhão, um terço entre US$ 1 bilhão e US$ 5 bilhões e o outro terço possui capitalização acima de US$ 5 bilhões.

Há alguns meses, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) anunciou uma proposta de estender o período de rodízio obrigatório de auditoria, de cinco anos para dez anos, para as empresas que criarem um comitê de auditoria em um modelo parecido com o exigido pela SEC. Se essa medida pegar, mais uma diferença entre a regra americana e a brasileira para se ter ações negociadas no mercado vai acabar.

Segundo Ibrahim, as companhias que têm papéis listados somente no Brasil atraem muitos recursos de investidores estrangeiros, mas apenas daqueles de grande porte, que dispõem de estrutura para fazer aplicações em outros países.

Quando os recibos de ações estão listados na Bolsa de Nova York, os aplicadores de menor porte - sejam eles institucionais ou de varejo - também passam a ter acesso aos papéis, o que diversifica a base de acionistas da companhia.

O executivo cita ainda um dado, sem dar detalhes de como o levantamento foi feito pela Nyse, que em 75% dos casos os investidores institucionais globais, tipo Fidelity e Capital Group, preferem comprar ADRs em vez da ação de uma mesma companhia no Brasil.

"Os EUA são o lugar mais barato no mundo para se negociar ações. Já o Brasil é um dos mais caros", afirma. Como vantagens adicionais para o investidor americano, ele cita o fato de o negócio já ser fechado em dólar e de ser liquidado nos Estados Unidos.

Em relação à competição com a BM&FBovespa e outras bolsas latinoamericanas por companhias, o executivo da Nyse diz que não vê a listagem no mercado dos Estados Unidos como uma alternativa excludente em relação à abertura de capital na bolsa local, mas como um complemento.

Questionado sobre o eventual interesse da Nyse de tentar concorrer com a BM&FBovespa no Brasil, conforme anunciado conjuntamente pela bolsa americana BATs e pela gestora de fundos Claritas no início do ano, Ibrahim é reticente.

"Olhamos oportunidades no mundo inteiro. Mas já temos presença grande no Brasil" disse ele, citando não apenas a listagem de companhias brasileiras na Nyse, mas também a venda de sistemas de tecnologia para corretoras e para a própria bolsa brasileira.

O executivo mencionou ainda a aprovação que a Nyse Liffe, bolsa de derivativos do grupo, recebeu da CVM em julho, para oferecer seus produtos no país.

Fernando Torres | De Nova York

Fonte: Valor Econômico

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