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Companhias tentam evitar novas perdas contábeis

Algumas empresas vieram a mercado comunicar que estão estudando as opções para o fim do ano Surpreendidas ao final do terceiro trimestre

25/11/2008 00:00:00

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Algumas empresas vieram a mercado comunicar que estão estudando as opções para o fim do ano

Surpreendidas ao final do terceiro trimestre com a valorização do dólar frente ao real, as empresas brasileiras estão avaliando as alternativas de proteção de dívida neste quarto trimestre, para não assustarem os investidores com novos efeitos contábeis ou perdas adicionais. Se o hedge cambial parece a opção mais óbvia, este seguro ficou muito mais caro - já que, somente em outubro, o dólar no mercado acumulou alta de 13,4%.

A alternativa, na opinião de diretores financeiros e analistas de investimento, é proteger de imediato as parcelas com vencimento próximo ou apenas os juros da dívida. Um indicativo de que esta movimentação começou são os dados da BM&FBovespa, que mostram que no início do terceiro trimestre foram fechados 6.541.983 contratos de dólar futuro, número que aumentou no primeiro mês do quarto trimestre para 8.088.043 contratos. Em volume financeiro, o salto foi de R$ 521,66 bilhões em julho para R$ 886,11 bilhões em outubro.

Algumas companhias vieram a mercado comunicar que estão estudando as opções para o fim do ano. A construtora Inpar, por exemplo, tinha US$ 15,3 milhões de dívida atrelada ao dólar (swap da dívida principal) e, com o aumento do dólar, o resultado financeiro da empresa foi impactado negativamente em R$ 5,3 milhões. Esse efeito não é gerado no caixa, já que o desembolso acontece de outubro de 2009 até outubro de 2010. Ainda assim, a empresa pretende fazer hedge de sua exposição em dólar, que corresponde a 4% do patrimônio líquido - mas quando o mercado apresentar condições mais adequadas. Para a chefe de análise da Corretora Ativa, Luciana Leocádio, o volume de hedge cambial não deve ter um grande incremento no trimestre pelo custo do seguro, mas é válido garantir ao menos a parcela da dívida que tem efeito caixa. "Não faz sentido as empresas carregarem o custo do hedge por um período de dívida igual ou superior a cinco anos, mas muitas estão reduzindo exposição com hedge do pagamento de cupom", diz.

É o caso da incorporadora e administradora de shopping centers BR Malls, que adotou uma política de proteção de caixa com antecedência. "Em novembro passado, fizemos emissão de bônus perpétuos, que representa 25% do nosso endividamento, ou seja, uma fatia pequena. É nossa única dívida em dólar", ressalta Leandro Bousquet, diretor financeiro e diretor de relação com investidores da BR Malls.

Neste formato, a companhia não precisa desembolsar o montante principal da dívida, mas o fluxo de juros - que, para os próximos cinco anos, estão segurados. "Fizemos um swap simples, de dólar para CDI (Certificado de Depósito Interbancário), no que é desembolso efetivo, que é o pagamento de US$ 17 milhões por ano", explica.

Se a empresa optasse por um hedge de toda a dívida, aí sim a proteção seria onerosa, pondera o executivo. Bousquet afirma que a BR Malls está bem posicionada no meio da tempestade por ter tomado medidas preventivas. "Sentimos no ano passado que o mercado poderia piorar em liquidez, por isso aceleramos as captações e hoje temos uma posição confortável", diz o executivo.

Já a Fertilizantes Heringer formatou um comitê de política de hedge para definir os passos de proteção de dívida, e outras companhias conseguiram apagar o incêndio antes do trimestre se encerrar. A Brasil Telecom Participações contratou, em setembro, operações com opções de dólar visando proteger o fluxo de caixa atrelado à dívida em moeda estrangeira. Ao final do mês, as operações registravam um ganho líquido de R$ 3,7 milhões, mas o vencimento se dará em fevereiro de 2009, quando a BrT terá a obrigação de comprar US$ 64 milhões, caso a taxa de dólar esteja abaixo do preço de exercício, ou o direito de adquirir US$ 80 milhões, caso a taxa de dólar esteja acima do preço de exercício definido pelas partes.

Contrapé
Para Alexandre Assaf Neto, professor da Fipecafi e especialista em mercado de capitais, o terceiro trimestre foi atípico, já que nos dois primeiros meses as empresas conseguiram desfrutar de um cenário favorável, enquanto o último mês surpreendeu negativamente com a alta do dólar. "Na maior parte do período, as empresas não estavam com dificuldade para captar fora e era grande coisa se endividar em dólar. Todos apostavam na manutenção do câmbio, haja visto os movimentos especulativos", ressalta.

O primeiro levantamento da Economatica considerando o balanço de 55 empresas de capital aberto mostra que o montante da dívida em moeda estrangeira aumentou de R$ 76,31 bilhões no segundo trimestre para R$ 92,89 bilhões ao final de setembro, avanço de 21,72% somente nesta amostra, que inclui grandes companhias, como Vale, Sadia, Aracruz e Embraer. O aumento da cifra se deve basicamente à variação cambial, e em menor escala, à contração de novas dívidas no exterior. Enquanto no segundo trimestre houve desvalorização de 8,84% do dólar comercial, no terceiro trimestre a moeda avançou 19,09%, puxada pela variação no mês de setembro.

Entretanto, essas dívidas têm efeito apenas contábil - transformando em efeito no caixa na data de vencimento dos empréstimos. "É o mesmo que ter aplicações em ações. Se for realizar hoje, o investidor vai ter prejuízo, mas se tiver prazo, pode recuperar ganho. No caso da dívida, reduzir o efeito", explica Assaf.

Ele considera que, dentro das normas de governança corporativa, o recomendado é proteger o caixa da empresa da variação de dívidas em moeda estrangeira, seja dólar, euro ou iene. "É natural mas não recomendado deixar de fazer hedge. Pela boa governança corporativa, a empresa deve isolar o risco de ativos e passivos expostos em qualquer moeda estrangeira."

A definição de como serão os balanços do quarto trimestre depende do câmbio de 31 de dezembro - mas ainda que a moeda americana continue em valorização, é pouco provável que as companhias elevem o montante devido com novas captações. O que os especialistas recomendam ao investidor é ficar de olho no montante da dívida, na variação de câmbio e nas datas de vencimento.

Fonte: Gazeta Mercantil

Enviado por: Wilson Fortunato

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