x

AGRONEGÓCIO

Taxação de LCAs pode encarecer crédito agrícola no Brasil

Proposta do governo de taxar LCAs em 5% pode reduzir oferta de crédito agrícola e aumentar custos ao produtor. Setor avalia impacto econômico.

  • compartilhe no facebook
  • compartilhe no twitter
  • compartilhe no linkedin
  • compartilhe no whatsapp
Taxação de LCAs pode elevar custo do crédito agrícola

Taxação de LCAs pode encarecer crédito agrícola no Brasil

A proposta do governo federal de aplicar alíquota de 5% sobre os rendimentos das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) pode comprometer parte relevante do financiamento agrícola, encarecer o crédito rural e impactar diretamente o produtor. Atualmente, as LCAs respondem por quase um terço do crédito destinado à safra 2024/2025, segundo o Banco Central.

Taxação de LCAs pode encarecer o crédito agrícola e afetar o produtor rural

A proposta do governo federal de tributar os rendimentos das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) em 5% tem gerado preocupação no setor produtivo, nos bancos e entre especialistas em investimentos. Se aprovada pelo Congresso, a medida poderá reduzir o volume de recursos disponíveis para o financiamento agrícola, elevar os custos de produção e comprometer a competitividade do agronegócio brasileiro.

As LCAs são instrumentos financeiros emitidos pelos bancos para captar recursos destinados exclusivamente ao financiamento de atividades do setor agropecuário. Ao adquirir esses títulos, o investidor fornece capital ao banco, que posteriormente empresta aos produtores rurais em forma de crédito com prazos e taxas de juros negociados.

LCAs representam quase um terço do crédito agrícola atual

De acordo com dados do Banco Central, as LCAs respondem por 29,1% de todo o crédito agrícola contratado para a safra 2024/2025. Esse percentual, que chegou a 38,9% na safra anterior (2023/2024), evidencia o peso desses papéis no financiamento da atividade rural.

O crescimento da participação das LCAs no funding agropecuário nos últimos anos decorreu, em grande parte, do regime atual de isenção tributária sobre seus rendimentos, o que tornou o produto altamente atrativo para investidores de renda fixa.

Com a eventual criação de um imposto sobre os ganhos — ainda que em uma alíquota inicial de 5% — a atratividade do instrumento pode diminuir, levando a uma redução na emissão de novas LCAs e, consequentemente, no volume de crédito disponível para o setor.

Impacto direto na formação do custo do produtor rural

Segundo José Carlos de Lima Junior, sócio diretor da Markestrat e cofundador da Harven Agribusiness School, um eventual aumento de 1 a 2 pontos percentuais no custo de captação dos bancos pode resultar em elevação de 0,5 a 1,5 ponto percentual no custo final do crédito para o produtor, considerando o mix de prazos praticados.

Ele destaca que o principal problema da medida é justamente o efeito indireto sobre o custo de financiamento de atividades agrícolas, que exigem elevado volume de capital para suportar longos ciclos de produção, desde o preparo do solo até a comercialização da safra.

“A taxação das LCAs impacta diretamente a capacidade dos bancos de captar recursos para financiar o setor agrícola, já que a rentabilidade oferecida aos investidores precisará ser ajustada para compensar o novo imposto”, alerta Lima Junior.

Crédito agrícola depende de funding estável e competitivo

Atualmente, o agronegócio brasileiro depende fortemente de crédito de longo prazo para viabilizar investimentos em tecnologia, mecanização, irrigação, armazenagem e inovação produtiva. Nesse sentido, as LCAs vêm cumprindo papel estratégico ao diversificar as fontes de financiamento disponíveis aos produtores.

Com a possível redução da atratividade das LCAs, os bancos poderiam buscar compensação nos spreads de crédito, encarecendo o financiamento de custeio, investimento e comercialização agrícola.

Ivan Wedekin, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e ex-diretor de commodities da BM&FBovespa, classifica a proposta de tributação como um “tiro no pé”:

“Isso afeta todas as operações de crédito rural e reduz a competitividade da LCA frente a outros papéis bancários, como o CDB. O risco é comprometer a modernização do setor, com reflexo direto na produtividade e na capacidade de inovação.”

Medida soma-se a outras dificuldades já enfrentadas pelo setor

Além do possível imposto, o crédito agrícola já tem sido pressionado por outros fatores recentes de regulação. Em fevereiro de 2024, o Conselho Monetário Nacional (CMN) ampliou o prazo mínimo de carência das LCAs de 90 dias para 9 meses, o que reduziu a liquidez dos papéis e desestimulou investidores. Posteriormente, o prazo foi ajustado para 6 meses.

Para compensar, o governo aumentou o percentual mínimo de aplicação dos recursos captados via LCA em operações de crédito rural, de 50% para 60%. No entanto, a proposta atual de tributação pode anular parcialmente o efeito das medidas compensatórias anteriores, agravando o risco de redução no volume total de recursos destinados ao agronegócio.

Agronegócio já enfrentava dificuldades financeiras em 2024

O cenário atual já impõe desafios ao setor, que enfrenta dificuldades financeiras em diversas cadeias produtivas, segundo Robson Casagrande, sócio da GT Capital:

“O agronegócio atravessa um ano difícil, com empresas em recuperação judicial. Qualquer restrição adicional na liquidez e na oferta de crédito pode comprometer um setor estratégico para o PIB.”

A redução da disponibilidade de crédito compromete não apenas o custeio das operações agrícolas, mas também investimentos em pesquisa, modernização de equipamentos e ampliação da capacidade produtiva.

Possível efeito indireto nos preços dos alimentos

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) também alertou que o aumento dos custos de financiamento pode refletir diretamente nos preços finais dos alimentos.

“A conta será paga pelo consumidor, que receberá o repasse no preço dos alimentos”, afirmou a entidade em nota oficial.

Como o agronegócio brasileiro desempenha papel relevante no abastecimento interno e na exportação de alimentos, eventuais encarecimentos podem ter impactos inflacionários indiretos, além de afetar a competitividade internacional do país.

Proposta ainda depende de aprovação no Congresso

A medida ainda não foi formalizada em projeto de lei enviado ao Congresso Nacional. Segundo o governo, a taxação das LCAs faz parte do conjunto de propostas de aumento de arrecadação previstas para equilibrar o orçamento federal.

No entanto, a tramitação legislativa ainda será necessária, o que abre espaço para negociações políticas e possíveis alterações no formato da proposta antes de eventual sanção.

Diante disso, o setor produtivo permanece mobilizado junto a representantes do Congresso para discutir os efeitos da política tributária sobre o financiamento rural.

Tributação de LCAs faz parte de um movimento fiscal mais amplo

A discussão sobre a tributação das LCAs não ocorre isoladamente. Nos últimos anos, o governo federal já promoveu mudanças em outras modalidades de investimento com isenção tributária parcial ou total, como o FIIs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas.

Para alguns analistas, a taxação dos rendimentos isentos reflete o esforço do governo em ampliar a base tributária sobre o mercado financeiro, reduzindo brechas de isenção e buscando maior equilíbrio na carga fiscal.

No entanto, no caso específico das LCAs, o temor de produtores, cooperativas e instituições financeiras é que a tributação sobrecarregue um elo estratégico do sistema de financiamento agropecuário nacional.

Embora ainda dependa de aprovação legislativa, a proposta de taxar os rendimentos das LCAs em 5% levanta preocupações sobre o futuro do crédito rural no Brasil. A eventual redução de recursos disponíveis, o aumento dos custos operacionais e o possível repasse ao consumidor final colocam o tema no centro do debate econômico.

Contadores, cooperativas, produtores e agentes financeiros precisam acompanhar de perto a evolução da proposta e avaliar seus potenciais impactos na estrutura de financiamento do agronegócio.

Com informações adaptadas do Valor Econômico

Leia mais sobre

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

ARTICULISTAS CONTÁBEIS

VER TODOS
Enquete da semana Contabeis

Qual tema mais está travando sua rotina contábil hoje?

Clique para votar

O Portal Contábeis se isenta de quaisquer responsabilidades civis sobre eventuais discussões dos usuários ou visitantes deste site, nos termos da lei no 5.250/67 e artigos 927 e 931 ambos do novo código civil brasileiro.

1999 - 2026 Contábeis ® - Todos os direitos reservados. Política de privacidade · Preferências de cookies