Com a proximidade do Carnaval, um dos períodos mais aquecidos para o comércio e os serviços no primeiro semestre, o varejo brasileiro já se prepara para um aumento significativo no fluxo de consumidores. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que a festa deve movimentar R$ 14,48 bilhões em todo o país, com um crescimento real de 3,8% em relação ao ano passado, impulsionado pelo turismo e pela maior disposição para o consumo. Diante desse cenário, especialistas em tecnologia para o varejo destacam estratégias práticas para que lojistas aproveitem melhor a data, aumentem as conversões e transformem o pico sazonal em resultados concretos.
Para Bernardo Rachadel, diretor da Unidade de Negócio de Varejo da Zucchetti Brasil, multinacional italiana especializada em sistemas de gestão que atende mais de 120 mil micro e pequenos comércios no país, o Carnaval exige do varejista um equilíbrio entre agilidade e planejamento. “É um período de alta demanda, decisões rápidas e forte pressão operacional. Quem se organiza com antecedência consegue negociar melhor com fornecedores, estruturar promoções mais eficientes e até girar estoques parados, criando kits e ofertas alinhadas ao perfil de consumo típico da data”, afirma.
Nesse cenário, a tecnologia tem papel central para orientar escolhas e reduzir riscos. Sistemas de gestão permitem ao varejista acompanhar dados de vendas, estoque e desempenho em tempo real, ajudando a ajustar preços, distribuição e equipes durante o pico do feriado. No caso de bares, restaurantes e comércios voltados ao consumo imediato, a integração entre frente de caixa, controle de estoque e pedidos se torna decisiva para garantir agilidade, evitar rupturas e preservar a experiência do cliente, fator crítico em períodos de grande fluxo.
“Datas comemorativas como o Carnaval funcionam como um teste de maturidade do varejo, porque expõem, em pouco tempo, quem está preparado para operar com eficiência e quem ainda depende de improviso”, afirma Rachadel. Ainda segundo ele, a leitura conversa comanálise se alinha aos dados de uma recente pesquisa da Zucchetti em parceria com a Central do Varejo, que mostrammostra um setor ainda otimista, mas mais cauteloso: embora quase 80% dos varejistas vejam espaço para crescimento, a maioria projeta avanços moderados e evita decisões mais agressivas nos próximos meses. “Quem aprende com esses picos e usa dados para ajustar processos, estoque e atendimento sai mais fortalecido para competir ao longo do ano”, complementa.
Cartões de loja ajudam a converter alta de volume em relacionamento
Para a RPE (Retail Payment Ecosystem), fintech especializada em soluções de crédito e meios de pagamento para grandes redes varejistas, o avanço dos cartões de loja e do crédito próprio do varejista tem papel central nesse movimento. Em períodos como o Carnaval, quando o fluxo de clientes aumenta e as decisões de compra são mais rápidas, essas soluções se tornam estratégicas para o varejo capturar mais valor e aprofundar o relacionamento com o consumidor.
“Os cartões de loja permitem ao varejista combinar crédito, fidelização e maior controle sobre a experiência do cliente. Em datas sazonais, isso faz ainda mais diferença, porque o aumento do volume pode ser convertido em relacionamento de longo prazo”, afirma Pedro Albuquerque, diretor de novos negócios da RPE.
Além de ampliar o poder de compra do consumidor, o crédito próprio contribui para o aumento do ticket médio e para a recorrência, especialmente quando integrado a estratégias de comunicação e ofertas personalizadas. “Ao operar seu próprio ecossistema de crédito, o varejista passa a conhecer melhor o comportamento de compra dos clientes e ganha mais inteligência para planejar campanhas, ajustar limites e estruturar ofertas mais aderentes à realidade do público”, destaca o executivo.
Segundo a RPE, o amadurecimento do varejo passa por olhar para o Carnaval, e e outras datas de alta demanda, não apenas como momentos de volume, mas como oportunidades estratégicas para fortalecer vínculos, testar abordagens e gerar dados que apoiem decisões ao longo do ano. “O varejo que aprende com esses picos sazonais chega mais preparado para crescer de forma sustentável”, conclui.
Execução em tempo real e agentes de IA elevam o nível
Para Stefan Furtado, gerente regional da Manhattan Associates, o Carnaval evidencia uma mudança estrutural no que realmente diferencia o varejo em 2026. “Durante muito tempo, capacidades como visibilidade de estoque ou integração entre canais foram vistas como vantagem competitiva. Hoje, isso já é o básico. Em períodos de alta pressão operacional, como o Carnaval, o diferencial está na execução em tempo real e na capacidade de tomar decisões rápidas, contextualizadas e automatizadas”, afirma.
Nesse cenário, Stefan destaca o papel crescente dos agentes de IA nas operações de varejo e cadeia de suprimentos. Diferentemente de soluções analíticas tradicionais, esses agentes atuam diretamente nos fluxos operacionais, monitorando vendas, estoque, pedidos, logística e atendimento de forma contínua. “Agentes de IA conseguem identificar gargalos, recomendar ajustes e até executar ações automaticamente, ajudando o varejista a manter nível de serviçoo nível de serviço mesmo com aumento abrupto de demanda”, explica.
Segundo o executivo, em datas como o Carnaval, esses agentes apoiam desde a operação de loja, com insights de desempenho de vendas em tempo real, até o atendimento ao cliente e a logística, antecipando problemas e orientando a alocação de equipes e recursos. “O feriado funciona como um teste de estresse da operação. Varejistas que contam com agentes inteligentes integrados à sua plataforma conseguem responder mais rápido, reduzir fricções e transformar picos sazonais em experiências consistentes para o consumidor”, conclui.
Alta circulação exige prevenção
Se, por um lado, o Carnaval amplia o potencial de vendas, por outro aumenta tambémpor outro, aumenta também os riscos operacionais do varejo físico, especialmente em regiões turísticas e lojas de alto fluxo. “A alta circulação de pessoas eleva naturalmente a exposição a perdas. O diferencial hoje é a capacidade de antecipar essas ocorrências com o uso de inteligência artificial, câmeras inteligentes e análise comportamental em tempo real”, afirma Rodrigo Tessari, CEO da Deconve, startup catarinense especializada em prevenção de perdas no varejo físico. Em Santa Catarina, por exemplo, dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública mostram uma redução superior a 40% nos furtos durante o período carnavalesco nos últimos anos, movimento associado à combinação entre políticas públicas e maior adoção de tecnologias de prevenção de perdas.
Fidelizar clientes além de sóapenas atrair
Durante o carnavalCarnaval, o foco das marcas costuma estar na aquisição em massa, mas os dados revelam que o verdadeiro potencial está na retenção. O acompanhamento analítico das jornadas dos consumidores permite entender padrões de recompra e ajustar estratégias para além da data. “Muitas empresas concentram esforços em atrair novos clientes, mas negligenciam quem já comprou. Ao cruzar dados de funil de vendas, canais de origem e comportamento pós-compra, conseguimos identificar oportunidades de reativação e criar campanhas personalizadas que mantêm o cliente engajado após o pico de vendas”, explica Renan Caixeiro, cofundador do Reportei, plataforma de relatórios e dashboards para marketing e vendas.
Segundo Caixeiro, o segredo está em transformar o volume de dados coletados no carnavalCarnaval em inteligência contínua. Ele recomenda que empresas integrem seus relatórios de marketing com dados de CRM para mensurar o lifetime value e monitorar o comportamento dos clientes mais lucrativos. “A retenção é uma métrica de longo prazo, mas começa com a análise de curto prazo. Entender quais campanhas geraram não só conversão, mas também recorrência, é o primeiro passo para construir relacionamentos duradouros”.
Fonte: Dialetto













