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REFORMA TRIBUTÁRIA

Imposto seletivo sobre refrigerantes e ultraprocessados ganha força em debate sobre saúde pública

Especialistas defendem ampliação da tributação sobre produtos considerados prejudiciais à saúde.

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Especialistas defendem IS para alimentos associados à obesidade

Imposto seletivo sobre refrigerantes e ultraprocessados ganha força em debate sobre saúde pública

O crescimento acelerado dos índices de sobrepeso e obesidade no Brasil reacendeu o debate sobre a utilização do Imposto Seletivo para desestimular o consumo de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas. Durante audiência pública realizada na Câmara dos Deputados, especialistas, representantes do governo e entidades da sociedade civil defenderam o fortalecimento da tributação sobre produtos associados ao aumento de doenças crônicas.

O encontro, promovido pela Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial a pedido do deputado Padre João (PT-MG), discutiu os dados do Atlas Mundial da Obesidade 2026 e os possíveis impactos da reforma tributária na promoção da saúde pública.

Segundo os participantes, o aumento da obesidade no país deixou de ser apenas uma questão individual e passou a representar um desafio social, econômico e político.

Quase 17 milhões de crianças e adolescentes estão acima do peso

Dados apresentados durante a audiência mostram que o Brasil possui atualmente quase 17 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos com sobrepeso ou obesidade.

O número representa aproximadamente 40% da população nessa faixa etária.

As projeções indicam que o cenário pode se agravar nos próximos anos. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, a parcela de jovens com excesso de peso poderá alcançar 50% até 2040.

Além do aumento da obesidade, o levantamento aponta crescimento de doenças associadas ao excesso de peso, como:

  1. hipertensão;
  2. hiperglicemia;
  3. triglicerídeos elevados;
  4. doença hepática esteatótica.

Obesidade já provoca mais de 60 mil mortes prematuras por ano

Durante a audiência, o diretor-geral do Instituto Fome Zero, José Graziano da Silva, destacou a gravidade do cenário brasileiro.

Segundo ele, dois terços da população adulta apresentam excesso de peso e aproximadamente metade desse grupo já se encontra em condição de obesidade.

“O número de mortes prematuras já supera 60 mil por ano. É um quadro que não precisa de adjetivos”, afirmou.

A representante do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Maria Maya, reforçou que mais de 30% das crianças e adolescentes atendidos na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) estão acima do peso adequado.

Especialistas defendem imposto seletivo maior para refrigerantes

Um dos principais temas do debate foi a aplicação do Imposto Seletivo, tributo criado pela reforma tributária para incidir sobre produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente.

A coordenadora do Programa de Sistemas Alimentares da ACT Promoção da Saúde, Priscila Diniz, defendeu que a tributação sobre refrigerantes seja significativamente ampliada.

Segundo estudo apresentado pela entidade, a alíquota deveria partir de 8%, em vez dos percentuais atualmente discutidos.

Para a especialista, o preço é uma ferramenta eficaz para influenciar hábitos de consumo.

“Se a tributação permanecer muito baixa, esses produtos continuarão competitivos mesmo diante dos impactos que causam à saúde pública”, argumentou.

Ela destacou ainda que a indústria de refrigerantes instalada na Zona Franca de Manaus recebe cerca de R$ 4 bilhões por ano em incentivos fiscais, o que reduz o efeito das medidas de desestímulo ao consumo.

Ministério da Fazenda aponta entraves políticos

A coordenadora-geral de Estudos Fiscais e Socioeconômicos do Ministério da Fazenda, Olga Hianni Portugal Vieira, afirmou que existem dificuldades para ampliar a tributação sobre alimentos ultraprocessados.

Segundo ela, embora a Emenda Constitucional 132/2023 tenha criado o Imposto Seletivo, a definição dos produtos alcançados pela tributação ainda enfrenta desafios técnicos e resistência de setores econômicos.

“O problema não é técnico, o problema é político. A indústria tem um lobby muito forte”, afirmou.

Ela acrescentou que o objetivo do imposto seletivo é tornar os alimentos saudáveis relativamente mais acessíveis do que aqueles associados ao desenvolvimento de doenças.

Como funciona o Imposto Seletivo

Criado pela reforma tributária, o Imposto Seletivo incidirá sobre bens e serviços considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente.

Entre os produtos já contemplados pela legislação estão:

  1. cigarros e derivados do tabaco;
  2. bebidas alcoólicas;
  3. bebidas açucaradas;
  4. concursos de prognósticos e fantasy sports;
  5. embarcações e aeronaves de uso específico;
  6. determinados recursos minerais.

No caso das bebidas alcoólicas, por exemplo, a tributação será proporcional ao teor alcoólico.

As alíquotas específicas ainda serão definidas por legislação complementar e normas futuras.

Ministério da Saúde apoia aumento do preço de bebidas açucaradas

Representantes do Ministério da Saúde defenderam medidas tributárias alinhadas às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A coordenadora de Atenção às Condições Crônicas na Atenção Primária, Danielle Moreira de Castro Lima, afirmou que a OMS recomenda uma tributação capaz de elevar em pelo menos 20% o preço final das bebidas açucaradas.

Segundo ela, o aumento de preços é uma estratégia complementar às ações de prevenção já desenvolvidas pelo governo, como:

  1. Programa Saúde na Escola;
  2. incentivo ao aleitamento materno;
  3. promoção da alimentação saudável;
  4. ações de educação nutricional.

Governo relaciona obesidade e insegurança alimentar

A secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Valéria Torres Amaral Burity, destacou que fome e obesidade são problemas interligados.

Segundo ela, ambos são consequência de desigualdades sociais e da forma como o sistema alimentar está estruturado.

A representante apresentou estudo que identificou redução de 57% nos índices de obesidade infantil entre crianças beneficiadas pelo programa de primeira infância do Bolsa Família.

Ela também destacou a Estratégia Intersetorial de Prevenção da Obesidade, coordenada pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan), que reúne 14 ministérios em ações conjuntas.

Projetos sobre publicidade infantil e alimentação saudável avançam

O deputado Padre João informou que pretende utilizar os dados e estudos apresentados na audiência para subsidiar discussões sobre projetos em tramitação no Congresso Nacional.

Entre os temas em análise estão propostas relacionadas a:

  1. rotulagem nutricional;
  2. restrição da publicidade infantil de alimentos;
  3. regulamentação de produtos ultraprocessados;
  4. alimentação escolar saudável.

Além disso, representantes do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) defenderam a ampliação das restrições à comercialização de ultraprocessados em escolas públicas e privadas.

Fazenda lançará painel para acompanhar incentivos fiscais

Durante o evento, o Ministério da Fazenda anunciou o lançamento, em 18 de junho, de uma plataforma de dados vinculada à Declaração de Incentivos, Benefícios e Imunidades Fiscais (Dirb).

O sistema permitirá acompanhar a relação entre benefícios tributários concedidos a determinados setores econômicos e indicadores sociais, econômicos e de saúde nos municípios brasileiros.

A expectativa é ampliar a transparência sobre os impactos das desonerações fiscais e fornecer subsídios para futuras decisões relacionadas ao Imposto Seletivo e à política tributária nacional.

Com informações da Agência Câmara

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