A instabilidade no Meu INSS, plataforma digital usada para solicitar aposentadorias e outros benefícios previdenciários, tem dificultado o acesso de segurados aos serviços do Instituto Nacional do Seguro Social e pode estar contribuindo para o aumento de pedidos represados, recursos e novas solicitações.
O sistema reúne mais de cem serviços e registra cerca de 105 milhões de acessos por mês. Apesar da ampla utilização, segurados e especialistas relatam problemas frequentes, como lentidão, quedas, falhas no preenchimento de dados e linguagem pouco acessível. As dificuldades atingem especialmente trabalhadores que dependem da plataforma para pedir aposentadoria, consultar vínculos no Cnis e acompanhar exigências do INSS.
Um dos principais pontos de preocupação é a análise automática dos pedidos. Auditoria realizada pelo próprio INSS no primeiro semestre de 2025 mostrou que, dos 543.419 requerimentos analisados eletronicamente, 280.231 foram negados. O número representa 51,57% das solicitações avaliadas de forma automatizada.
Na última semana, o TCU determinou que o INSS, o Ministério da Previdência Social e a Dataprev adotem mudanças no modelo de concessão automática em até 180 dias. O tribunal apontou falhas no processo e afirmou que os problemas impactam a fila de benefícios, um dos principais desafios da Previdência.
Segundo dados do INSS, a fila chegou a ultrapassar 3 milhões de pedidos em fevereiro e caiu para 2,191 milhões em maio, uma redução de 30% e o menor nível dos últimos 17 meses. Mesmo com a queda, especialistas avaliam que as falhas de acesso ao Meu INSS podem deixar parte dos segurados fora da fila oficial, já que muitos não conseguem concluir o requerimento.
Além disso, negativas automáticas tendem a gerar novos pedidos e recursos administrativos, aumentando o volume de processos. Para advogados previdenciários, o problema é agravado pela dificuldade de compreensão do sistema e por inconsistências no Cnis, cadastro que reúne vínculos trabalhistas e contribuições previdenciárias.
O simulador de aposentadoria também é alvo de críticas. Especialistas apontam que a ferramenta pode apresentar resultados incompletos, pois nem sempre considera situações específicas, como tempo especial, aposentadoria de professor, aposentadoria especial, serviço público, atividade rural ou regras aplicáveis à pessoa com deficiência.
A auditoria do INSS identificou ainda falhas na comunicação com os segurados. Dos 261 requerimentos negados avaliados, 110 apresentavam divergências entre as informações declaradas pelos usuários, os documentos anexados e os dados do Cnis. O relatório também apontou diferenças entre a renda estimada durante o pedido e o valor efetivamente concedido em 83,33% dos casos analisados.
Representantes dos servidores afirmam que os problemas não se limitam aos segurados. Nas agências, há relatos de equipamentos incompatíveis com sistemas da Dataprev, internet instável e falta de pessoal. O quadro de servidores teria caído de cerca de 40 mil em 2018 para aproximadamente 19,6 mil, o que aumenta a pressão sobre o atendimento presencial e digital.
Em nota conjunta, INSS e Dataprev negam falhas generalizadas e afirmam que podem ocorrer apenas “ocorrências pontuais”. A Dataprev diz operar com meta de disponibilidade de 98% para os serviços e afirma que, em 2026, até meados de junho, o menor índice registrado foi de 98,50%.
Os órgãos também afirmam que a concessão automática segue leis e normas previdenciárias, com cruzamento de dados em bases governamentais. Segundo a nota, o pedido só é concluído automaticamente quando as informações permitem uma decisão objetiva. Quando há necessidade de análise complementar, o processo é encaminhado a um servidor do INSS.
Atualmente, cerca de 528 mil processos dependem de pendências dos próprios segurados, como a entrega de documentos. O número representa mais de 20% da fila de benefícios.
Para solicitar a aposentadoria, a Previdência orienta que o segurado acesse o Meu INSS, escolha o tipo de benefício na aba “Serviços” e confira os vínculos registrados no Cnis. Nessa etapa, é possível incluir períodos ausentes, corrigir informações e informar tempo rural, especial ou de serviço público. O envio de documentos não é obrigatório no momento do pedido, mas o INSS pode emitir exigência caso precise de informações adicionais para concluir a análise.













