Mais de 3 mil empresários contábeis participaram, no último fim de semana, em São Paulo, do CCAV 2026 (Contabilidade Consultiva Ao Vivo), um dos principais eventos voltados ao desenvolvimento de escritórios contábeis no país. A programação reuniu especialistas em gestão, liderança, vendas e Reforma Tributária para debater os desafios e oportunidades que devem marcar o futuro da profissão.
Entre os temas que mais chamaram a atenção do público esteve a necessidade de fortalecer a gestão dos escritórios para aproveitar as oportunidades geradas pela Reforma Tributária e aumentar a rentabilidade dos negócios contábeis.
Os palestrantes defenderam que o crescimento sustentável das empresas do setor depende menos da capacidade técnica e mais da construção de equipes, processos e lideranças capazes de sustentar a expansão.
Crescimento do escritório depende da formação de líderes
Durante sua apresentação, Pedro Nery destacou que um dos maiores obstáculos ao crescimento dos escritórios contábeis não está relacionado ao conhecimento técnico, mas à capacidade de desenvolver pessoas e lideranças.
Segundo ele, a evolução de um negócio exige mudanças constantes no papel do empresário contábil.
Nos estágios iniciais, o foco costuma estar na prospecção de clientes e na execução das atividades operacionais. À medida que o faturamento cresce, porém, torna-se necessário migrar para funções ligadas à gestão, liderança e desenvolvimento de equipes.
Para Nery, muitos escritórios encontram dificuldades justamente na transição entre essas fases, permanecendo excessivamente dependentes do trabalho operacional dos sócios.
O desafio dos escritórios que faturam entre R$ 50 mil e R$ 100 mil
Um dos pontos mais debatidos durante a imersão foi a chamada "zona de estagnação" enfrentada por muitos escritórios que atingem faturamentos intermediários.
Segundo o especialista, nessa etapa os empresários costumam contar com equipes tecnicamente competentes, mas ainda sem capacidade de liderança suficiente para assumir responsabilidades estratégicas.
A recomendação foi investir na formação de líderes para áreas como:
- departamento fiscal;
- departamento contábil;
- departamento pessoal;
- setor societário.
A ausência dessas lideranças acaba concentrando decisões nos sócios e dificultando o crescimento da operação.
Reforma Tributária já exige preparação imediata dos escritórios
Além das discussões sobre gestão e liderança, a Reforma Tributária foi um dos temas centrais do evento. Durante entrevista ao Portal Contábeis, especialistas alertaram que as mudanças já começaram a impactar a rotina dos profissionais da contabilidade e exigem preparação imediata dos escritórios.
Para Carlos Dias, diretor da IOB, muitos profissionais ainda tratam a reforma como um projeto futuro, quando, na prática, as adaptações já estão em andamento.
"A reforma já chegou, não é uma coisa que está por vir. Em agosto já começam as rejeições nos documentos fiscais e os contadores terão que fazer escolhas importantes, como a definição entre o regime híbrido e o regime regular para empresas do Simples Nacional. É aí que entra toda uma camada de tecnologia para projetar cenários e apoiar a tomada de decisão, utilizando a grande protagonista dessa transformação, que é a nota fiscal eletrônica", afirmou.
Segundo o executivo, a digitalização das obrigações fiscais e o uso inteligente dos dados fiscais serão fatores decisivos para que escritórios e empresas consigam navegar pelo período de transição do novo sistema tributário.
Oportunidade histórica para a contabilidade
Já Pedro Nery destacou que a Reforma Tributária representa, ao mesmo tempo, a maior oportunidade e o maior desafio já enfrentado pela profissão contábil.
Para ele, o novo cenário amplia significativamente o papel estratégico do contador dentro das empresas.
"A reforma tributária é a maior oportunidade da história da contabilidade. O contador passa a ocupar um novo espaço, deixando de ser apenas alguém que apura impostos para se tornar um profissional que direciona o empresário, um verdadeiro mentor dos negócios", afirmou.
Ao mesmo tempo, Nery alertou que as mudanças podem transformar profundamente o modelo tradicional de prestação de serviços contábeis.
"Ao mesmo tempo é a maior ameaça da história da contabilidade. Com a apuração assistida e o avanço da tecnologia, grande parte do trabalho operacional do setor fiscal tende a desaparecer. Isso abre espaço para o surgimento de novos concorrentes, inclusive empresas de fora do mercado contábil tradicional, oferecendo serviços com custos menores", ressaltou.
Na avaliação do especialista, os escritórios que permanecerem focados exclusivamente em atividades operacionais tendem a enfrentar cada vez mais pressão competitiva nos próximos anos. Por outro lado, aqueles que investirem em consultoria, planejamento tributário, gestão e relacionamento com clientes terão mais oportunidades de crescimento durante a implementação da Reforma Tributária.
Reforma Tributária exige mudança de postura dos contadores
Outro destaque do evento foi a palestra de Davi Gonçalves, do Contabilide.Net, que abordou os impactos da Reforma Tributária sobre os diferentes regimes tributários.
Segundo ele, a principal mudança não está na simples atualização das regras atuais, mas na substituição completa dos tributos que incidem sobre o consumo.
Com a reforma, serão gradualmente extintos:
Em seu lugar entrarão:
Para o especialista, a transformação afetará todas as empresas, independentemente do regime tributário adotado.
Mudanças atingirão Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real
Durante a apresentação, Gonçalves destacou que a reforma trará impactos distintos para cada modelo de tributação.
No Lucro Real, a expectativa é de ampliação das possibilidades de creditamento tributário.
Já as empresas do Lucro Presumido passarão a conviver com uma lógica de apuração baseada em débitos e créditos semelhante à atualmente aplicada ao Lucro Real.
No caso das empresas optantes pelo Simples Nacional, uma das principais novidades será a possibilidade de recolher a CBS e o IBS fora do regime simplificado.
Segundo o especialista, a decisão poderá influenciar diretamente a competitividade das empresas no mercado, especialmente em operações que envolvam aproveitamento de créditos tributários.
Empresários precisam agir antes que os clientes sejam impactados
O encerramento do evento contou com a participação de Lázaro do Carmo Jr., ex-vice-presidente do Grupo Silvio Santos.
Durante sua apresentação, ele ressaltou que muitos empresários tendem a adiar decisões estratégicas até que os problemas se tornem inevitáveis.
Nesse cenário, afirmou, o contador deve assumir uma postura mais consultiva e atuar de forma antecipada, liderando projetos relacionados à adaptação à Reforma Tributária.
A orientação foi para que os profissionais da contabilidade deixem de atuar apenas na execução de obrigações fiscais e passem a ocupar uma posição mais estratégica junto aos clientes.
Contabilidade consultiva ganha protagonismo
As discussões realizadas durante o CCAV reforçaram uma tendência que vem ganhando força nos últimos anos: a ampliação do papel consultivo da contabilidade.
Com a chegada da Reforma Tributária, especialistas avaliam que haverá uma demanda crescente por análises de impacto, revisão de processos, reestruturações societárias e planejamento tributário.
Nesse contexto, escritórios que conseguirem combinar conhecimento técnico, gestão eficiente e liderança terão mais condições de aproveitar as oportunidades geradas pela maior transformação tributária das últimas décadas.
A expectativa dos participantes é que os próximos anos exijam dos profissionais não apenas domínio da legislação, mas também capacidade de conduzir equipes, implementar mudanças e apoiar clientes na adaptação ao novo sistema tributário brasileiro.













