A reforma tributária já começou a impor desafios aos bares e restaurantes brasileiros, mas a maior parte dos empresários do setor ainda não sabe exatamente como as mudanças vão afetar seus negócios. Pesquisa nacional da Abrasel mostra que o desconhecimento sobre regras, cronograma e decisões necessárias para a adaptação é hoje a principal preocupação dos empreendedores. Na avaliação da entidade, o poder público tem falhado em esclarecer não só empresários, mas a sociedade em geral, sobre as implicações e o calendário da reforma.
O levantamento aponta que 60,9% dos empresários não se sentem preparados, sendo 43,9% "pouco preparados" e 17% "nada preparados". Outros 16,3% afirmam que não conseguem sequer avaliar o nível de preparação de seus negócios. Apenas 22,9% se consideram "preparados" ou "muito preparados" para enfrentar a transição.
A situação é ainda mais preocupante entre as empresas optantes pelo Simples Nacional, que representam 71,3% dos entrevistados. Apenas 10,6% afirmam estar se preparando ativamente para a antecipação da escolha do regime tributário, prevista para setembro de 2026.
Segundo a pesquisa, 33,6% dos empreendedores dizem não ter informações suficientes sobre as mudanças. Outros 29% reconhecem a importância da decisão, mas afirmam precisar de mais informações e ferramentas para escolher o regime mais adequado. Já 26,8% consideram o prazo curto e avaliam que o mercado ainda não está preparado para orientar as empresas. Somados, esses grupos representam 89,4% dos respondentes optantes pelo Simples Nacional.
Para o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, o setor precisa de um grande esforço de orientação para evitar decisões equivocadas. "Os empresários estão diante de uma transformação profunda no sistema tributário brasileiro, mas ainda sem acesso às informações necessárias para compreender todas as implicações da mudança. O governo federal deveria liderar este processo de esclarecimento, mas tem falhado na missão. Em face disso, inclusive surgem a todo momento peças de desinformação sobre o tema nas redes sociais, muitas delas com falsos alertas que confundem ainda mais o empreendedor e a população. O principal desafio neste momento é garantir que os empresários e os responsáveis pela contabilidade dos negócios entendam o que muda na prática, quais decisões precisam tomar e em que prazo elas deverão ser tomadas".
As dúvidas se concentram justamente nos aspectos mais relevantes para a gestão dos negócios. Quase metade dos entrevistados (49,4%) quer entender como a nova estrutura tributária afetará a formação de preços e as margens de lucro. Outros 48,1% procuram informações básicas sobre o funcionamento dos novos tributos IBS e CBS.
O regime específico para o setor de alimentação fora do lar também desperta dúvidas. Cerca de 46,8% dos empresários afirmam precisar de orientações sobre a redução de 40% da alíquota prevista para o setor e sobre as regras de apropriação de créditos tributários.
A escolha entre permanecer no Simples Nacional tradicional ou aderir ao modelo híbrido é outra preocupação importante, citada por 34,5% dos entrevistados. O funcionamento do recolhimento automático dos tributos nas vendas, conhecido como split payment, preocupa 34% dos respondentes. Mudanças em obrigações acessórias, emissão de notas fiscais e riscos de autuação aparecem entre as dúvidas de 26,6% dos empresários.
O próprio calendário da reforma também ainda gera incertezas. Para 16,4% dos entrevistados, compreender as etapas da transição e as datas previstas para implementação das mudanças é uma das principais necessidades de informação neste momento.
Maioria vê impacto negativo
A falta de informação ajuda a explicar por que muitos empresários ainda não conseguem avaliar os efeitos da reforma. Quando questionados sobre os impactos para o setor de alimentação fora do lar, 22,5% responderam que não sabem dizer se as consequências serão positivas ou negativas. Ao avaliar os reflexos sobre o próprio negócio, o percentual de indecisos é de 22,9%.
Entre aqueles que já formaram uma opinião, predominam as preocupações. Em relação ao setor, 54,2% acreditam que os efeitos serão negativos ou muito negativos. Sobre os próprios negócios, esse percentual é de 52,9%.
Para Paulo Solmucci, a pesquisa mostra que o debate sobre os impactos da reforma ainda está sendo ofuscado por uma questão mais urgente: a necessidade de informação. "Antes mesmo de discutir se a reforma será positiva ou negativa para cada empresa, é preciso garantir que o empresário compreenda as regras do jogo. A tomada de decisão exigirá planejamento tributário, revisão de processos e entendimento dos novos mecanismos. Sem informação de qualidade, o risco de erros aumenta e o custo da adaptação pode ser maior."
A pesquisa ouviu 1.480 empresários de bares, restaurantes, padarias, lanchonetes, pizzarias, cafeterias e outros estabelecimentos de alimentação fora do lar entre os dias 20 e 28 de julho de 2026, em todas as regiões do país.
Fonte: Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel)











