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Fim da taxa das blusinhas pode colocar 109 mil empregos em risco, estima CNI

Entidade pede manutenção da alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 e calcula perda potencial de R$ 21,8 bilhões para a indústria brasileira.

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Fim da taxa das blusinhas pode colocar 109 mil empregos em risco, estima CNI

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende a manutenção da chamada “taxa das blusinhas”, alíquota de 20% incidente sobre compras internacionais de até US$ 50, e estima que a retirada definitiva da cobrança pode colocar em risco 109 mil empregos no Brasil.

Em nota divulgada nesta quarta-feira (26), a entidade também calcula que o aumento das importações decorrente do fim da tributação pode representar uma perda de R$ 21,8 bilhões para a indústria brasileira.

A alíquota está suspensa desde maio por medida provisória (MP). O texto precisa ser analisado pelo Congresso Nacional até 8 de setembro. Caso perca a validade sem aprovação, a cobrança de 20% volta a ser aplicada às remessas internacionais enquadradas nas regras.

Uma comissão mista destinada à análise da medida deve ser instalada na próxima terça-feira (1º).

CNI estima risco de 109 mil empregos

A estimativa da CNI considera o efeito que o aumento das compras de produtos estrangeiros pode provocar sobre a produção nacional.

Segundo a entidade, para cada R$ 1 gasto adicionalmente em encomendas internacionais de pequeno valor, a produção doméstica deixa de movimentar R$ 3,11.

A partir desse impacto, a Confederação calcula uma perda potencial de R$ 21,8 bilhões para a indústria e risco para 109 mil postos de trabalho.

Os números são projeções elaboradas pela entidade e não representam empregos que já tenham sido efetivamente eliminados após a suspensão da cobrança.

O estudo busca estimar justamente o que pode ocorrer caso a alíquota permaneça zerada.

Como a CNI chegou à estimativa?

Para calcular o impacto, os analistas utilizaram dados de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e construíram dois cenários.

No primeiro, estimaram qual seria a trajetória das importações realizadas pelo Programa Remessa Conforme caso a tributação de 20% tivesse sido mantida até dezembro de 2026.

No segundo, projetaram a evolução das compras internacionais sem a cobrança.

A diferença entre os dois cenários foi utilizada para estimar a parcela adicional das importações que poderia ser associada à retirada do imposto.

Em seguida, esse aumento foi aplicado à Matriz Insumo-Produto brasileira, instrumento que permite analisar as relações entre os diferentes setores da economia e estimar efeitos sobre produção e emprego.

Foi a partir desse exercício que a CNI chegou aos potenciais R$ 21,8 bilhões de produção industrial e 109 mil empregos em risco.

Indústria de transformação concentra maior impacto

A projeção aponta que a indústria de transformação seria a principal atingida pela manutenção da alíquota zerada.

Segundo a CNI, aproximadamente dois terços do impacto econômico estimado recaem sobre esse segmento.

A explicação está no perfil das mercadorias adquiridas por meio das plataformas internacionais.

Produtos como vestuário e eletrônicos, bastante presentes nas compras de pequeno valor realizadas por consumidores brasileiros, concorrem diretamente com itens produzidos pela indústria nacional.

Na avaliação da entidade, a diferença de tratamento tributário favorece os produtos importados e reduz a competitividade dos fabricantes instalados no país.

O que é a taxa das blusinhas?

A expressão “taxa das blusinhas” passou a ser utilizada para designar a cobrança do Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 realizadas dentro do Programa Remessa Conforme.

O programa estabelece tratamento específico para empresas de comércio eletrônico que comercializam produtos estrangeiros diretamente para consumidores brasileiros.

A discussão sobre a tributação dessas remessas ganhou força com o crescimento das compras realizadas em plataformas internacionais, principalmente de produtos de menor valor.

A indústria e parte do varejo nacional defendem que a cobrança reduz a diferença tributária entre produtos brasileiros e mercadorias importadas.

Por outro lado, a retirada da alíquota reduz o custo das compras internacionais para o consumidor.

Cobrança está suspensa desde maio

A alíquota de 20% está suspensa desde maio, após a edição de medida provisória pelo governo federal.

Como toda MP, porém, a medida possui prazo de validade e precisa ser analisada pelo Congresso para continuar produzindo efeitos.

O prazo atual termina em 8 de setembro.

Isso cria dois cenários.

Se o Congresso aprovar a medida dentro do prazo, a retirada da cobrança poderá ser mantida conforme o texto aprovado pelos parlamentares.

Caso a MP perca validade sem votação, a tributação de 20% volta a ser aplicada às compras internacionais alcançadas pela regra anterior.

Por isso, as próximas semanas serão decisivas para empresas de comércio eletrônico, consumidores, varejistas e fabricantes nacionais.

Comissão mista deve analisar medida

Uma comissão mista do Congresso deverá ser instalada na próxima terça-feira (1º) para analisar a medida provisória.

O colegiado será presidido pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que também participou das articulações da Reforma Tributária no Congresso.

A instalação ocorre após acordo envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado Federal, Davi Alcolumbre.

A partir da instalação, deputados e senadores terão um período curto para analisar o texto antes do encerramento de sua vigência.

CNI já havia se posicionado contra retirada

Esta não é a primeira manifestação da CNI contra a suspensão da cobrança.

Desde a decisão do governo de retirar temporariamente a alíquota, entidades representativas da indústria e do varejo vêm argumentando que o tratamento tributário das remessas internacionais cria uma situação de concorrência desigual entre produtos importados e mercadorias produzidas no Brasil.

A Confederação chegou a recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a retirada da tributação.

Agora, com a aproximação da análise da MP pelo Congresso, a entidade acrescenta estimativas de produção e emprego à discussão.

Fiemg aponta crescimento das operações do Remessa Conforme

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também se manifestou em defesa da manutenção da tributação.

Segundo a entidade, a redução da alíquota já provocou um forte crescimento das operações realizadas pelo Remessa Conforme em junho e julho.

A federação argumenta que mudanças no modelo precisam considerar os efeitos econômicos de longo prazo e a capacidade das empresas brasileiras de competir, investir e gerar empregos.

O argumento acompanha a principal preocupação apresentada pela CNI: o efeito que uma diferença de tributação entre produtos nacionais e importados pode provocar sobre a produção doméstica.

Debate envolve arrecadação, preços e competitividade

A discussão sobre a taxa das blusinhas coloca em lados diferentes interesses econômicos relevantes.

Para os consumidores, a retirada do Imposto de Importação reduz diretamente o custo de determinadas compras internacionais.

Para indústria e varejo nacionais, entretanto, a questão envolve isonomia tributária e concorrência com empresas estrangeiras que vendem diretamente ao consumidor brasileiro.

Há ainda o impacto arrecadatório da decisão.

A manutenção ou retirada da alíquota interfere na receita obtida com as importações de pequeno valor, enquanto alterações no volume dessas compras podem produzir reflexos sobre a atividade e a arrecadação gerada pelas empresas instaladas no Brasil.

É justamente essa combinação que torna a decisão do Congresso relevante não apenas para quem compra em plataformas estrangeiras, mas também para empresas e setores produtivos nacionais.

Congresso terá poucos dias para definir futuro da cobrança

Com a instalação da comissão prevista para 1º de setembro e a validade da medida terminando no dia 8, o Congresso terá uma janela curta para avançar na discussão.

Até lá, a suspensão da alíquota permanece em vigor.

Para a indústria, a votação será acompanhada de perto. A CNI sustenta que a manutenção da isenção pode ampliar as importações e reduzir produção e empregos no país.

Os 109 mil postos de trabalho e R$ 21,8 bilhões de produção, contudo, devem ser interpretados como estimativas resultantes do cenário econômico projetado pela entidade, e não como perdas já concretizadas.

A definição efetiva dependerá agora da tramitação da medida provisória no Congresso e de eventuais alterações feitas por deputados e senadores antes do fim do prazo de vigência.

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