A inteligência artificial (IA) já faz parte da rotina de grande parte dos profissionais da contabilidade, mas o avanço da tecnologia traz uma questão que começa a ganhar espaço nos escritórios: quem será responsável por conferir os dados produzidos ou processados pela ferramenta?
Uma pesquisa realizada pela IOB em parceria com o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e a Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis (Fenacon), com 393 profissionais de todas as regiões do país, mostra que 78% dos entrevistados utilizam ferramentas de IA no trabalho pelo menos uma vez por semana. Desse grupo, 53% afirmam utilizar a tecnologia diariamente.
O levantamento também mostra que a busca por produtividade e a redução de tarefas operacionais estão entre os principais motivos para a adoção da tecnologia.
Ao mesmo tempo, a utilização da IA aumenta a importância de uma etapa que não pode ser simplesmente automatizada: a validação das informações.
IA pode acelerar processos, mas não elimina a conferência
Na contabilidade, ferramentas de inteligência artificial podem auxiliar na organização de informações, identificação de padrões, análise de documentos e execução de tarefas repetitivas.
O ganho de produtividade, porém, não significa que o resultado produzido pela tecnologia esteja automaticamente correto.
Esse é um dos pontos destacados pelo CFC ao comentar a pesquisa. Segundo o presidente da entidade, Joaquim Bezerra, algoritmos sofisticados podem produzir decisões equivocadas quando são alimentados com dados inadequados.
“Algoritmos sofisticados continuarão produzindo decisões equivocadas quando alimentados por dados ruins. Por isso, quanto maior for o avanço tecnológico, maior será a necessidade de informações confiáveis”, diz Bezerra.
A declaração reforça uma mudança importante na rotina dos escritórios: conforme determinadas tarefas são automatizadas, a conferência e a interpretação dos resultados passam a ter ainda mais peso.
Quem responde pelo resultado?
A utilização de uma ferramenta de IA não transfere automaticamente para o sistema a responsabilidade pelo resultado de um trabalho contábil.
Na prática, o profissional precisa compreender quais informações foram utilizadas, verificar se os dados de entrada estão corretos e avaliar se a conclusão apresentada pela tecnologia é compatível com a situação da empresa e com as normas aplicáveis.
Isso significa que o contador não deve tratar a resposta de uma ferramenta como uma informação pronta para ser utilizada sem revisão.
Uma classificação incorreta, uma informação desatualizada ou um dado incompleto pode gerar um resultado equivocado mesmo quando a tecnologia funciona conforme o esperado.
Por isso, a adoção da IA exige a criação de processos de conferência, validação e rastreabilidade dentro dos escritórios.
O risco está também nos dados de entrada
Um dos desafios apontados pelos profissionais na pesquisa é justamente a dificuldade de integração entre sistemas e dados, citada por 17% dos entrevistados. O levantamento também identificou o excesso de retrabalho manual, apontado por 34%, a falta de tempo para análise e consultoria, por 20%, e os erros humanos em tarefas repetitivas, por 15%.
Nesse cenário, automatizar uma informação incorreta pode apenas fazer com que o erro seja identificado mais rapidamente ou se espalhe por diferentes etapas do processo.
Por isso, antes de implementar uma ferramenta de IA, o escritório precisa avaliar de onde vêm os dados, como eles são tratados e quais mecanismos existem para identificar inconsistências.
A conferência também precisa considerar a legislação aplicável e as particularidades de cada empresa. Uma resposta tecnicamente plausível não necessariamente significa que ela seja adequada para aquela situação.
O contador deixa de conferir tudo?
Não necessariamente. A tendência apontada pelo avanço da IA é de mudança no tipo de trabalho realizado.
A pesquisa mostra que 58% dos profissionais acreditam que a IA aumentará o valor estratégico do contador. Outros 29% entendem que algumas funções serão automatizadas, mas que o profissional continuará sendo essencial para interpretar informações e participar da tomada de decisões.
Com isso, tarefas operacionais podem perder espaço, enquanto atividades relacionadas à análise, interpretação, consultoria e tomada de decisão ganham relevância.
O desafio passa a ser encontrar o equilíbrio entre automação e controle humano.
Como os escritórios podem se preparar?
A adoção da inteligência artificial na contabilidade exige mais do que contratar uma ferramenta. É necessário definir quem será responsável pela conferência dos resultados, quais informações precisam ser revisadas e em quais situações a análise humana será obrigatória.
Também é importante estabelecer procedimentos para documentar as etapas do trabalho, identificar a origem dos dados e manter registros que permitam entender como determinado resultado foi obtido.
Nesse modelo, a IA pode atuar como uma ferramenta de apoio à produtividade, enquanto o profissional continua responsável pela análise crítica das informações utilizadas no trabalho.
O próprio CFC aponta que o avanço tecnológico exige atualização profissional e atenção à segurança, à qualidade dos dados e à responsabilidade no uso da inteligência artificial.
IA muda a rotina, mas não elimina a responsabilidade
A inteligência artificial tende a ocupar cada vez mais espaço nos escritórios contábeis. A pesquisa mostra que essa transformação já está acontecendo: 78% dos profissionais entrevistados utilizam ferramentas de IA semanalmente.
O desafio, portanto, não é apenas decidir onde usar a tecnologia, mas estabelecer como conferir aquilo que ela produz.
Para o profissional contábil, a vantagem competitiva pode estar justamente nessa etapa. Quanto mais processos forem automatizados, maior tende a ser a necessidade de alguém capaz de questionar o resultado, identificar inconsistências e avaliar se a informação realmente pode sustentar uma decisão.
A IA pode processar dados em velocidade e escala. A responsabilidade pela qualidade da informação, porém, continua dependendo de processos de controle e da análise profissional.
Com informações do Conselho Federal de Contabilidade













