Há um erro comum entre empresários brasileiros diante da Reforma Tributária: tratá-la como um problema que "vai bater na porta em 2027" e que, até lá, pode esperar. Essa visão é perigosa. A transição para o novo sistema já começou a exigir decisões, e quem deixar para agir no último momento vai descobrir, tarde demais, que faltou tempo para testar, ajustar e corrigir rota.
A partir de janeiro de 2027 entra em vigor a CBS, que substitui PIS e Cofins. ICMS e ISS seguirão um caminho de transição mais longo, com convivência entre o sistema atual e o novo modelo até 2032. Na prática, isso significa que nenhuma empresa vai "migrar" de um dia para o outro: vai operar por anos dentro de duas lógicas tributárias ao mesmo tempo. E é justamente essa convivência que cria o maior risco de erro.
Faturar bem não é o mesmo que lucrar bem
Um dos hábitos mais arraigados na gestão de pequenas e médias empresas brasileiras é acompanhar o quanto se vende, sem necessariamente saber quanto sobra de cada venda. A Reforma Tributária escancara essa lacuna. Com a mudança na lógica de créditos, o resultado de uma operação vai depender menos da alíquota isolada e mais de como o negócio inteiro (custo, fornecedor, contrato, preço) se encaixa no novo sistema.
Isso significa que o empresário vai precisar responder, produto a produto, cliente a cliente: quanto custa, o que está embutido nesse custo e qual o efeito tributário real daquela operação. Quem só olhar para a alíquota vai deixar passar a parte mais importante da conta.
Fornecedor deixa de ser só uma questão de preço
Um efeito pouco discutido da reforma é o peso que a escolha de fornecedores vai ganhar nas decisões comerciais. Como o novo sistema de créditos tributários recompensa quem compra de fornecedores que geram os créditos esperados, empresas vão passar a considerar, além de preço e qualidade, o impacto fiscal de cada relação comercial.
Na prática, isso pode reorganizar cadeias inteiras de fornecimento. Fornecedores despreparados ou fora da nova lógica de créditos correm o risco de perder espaço, não porque o produto piorou, mas porque a conta tributária do cliente mudou. E essa é uma decisão que passa a envolver a área comercial, não apenas o setor fiscal.
O calendário não perdoa quem espera "ficar tudo definido"
Parte da regulamentação da reforma ainda está em construção, e é tentador esperar que todas as regras estejam fechadas para só então agir. Essa espera tem um custo: reduz o tempo disponível para testar sistemas, treinar equipes e simular cenários antes que as regras valham de verdade. Empresas que atuam em mais de um estado ou município enfrentam essa pressão de forma ainda maior, já que vão ter de lidar com particularidades regionais dentro de um sistema que também está em transição.
O aprendizado de quem já começou a se preparar é consistente: treinar equipes, orientar clientes e rodar simulações antes da entrada em vigor das regras reduz as dificuldades no meio do caminho.
A pergunta certa não é "vou pagar mais ou menos imposto"
Não existe resposta genérica para essa pergunta. O efeito da reforma varia conforme a atividade, a estrutura da empresa, o uso de créditos e a cadeia de fornecedores de cada negócio. Por isso, a pergunta mais útil não é sobre a alíquota, e sim: eu conheço, de fato, a rentabilidade de cada operação do meu negócio?
2027 marca o início da transição, não o fim dela; o processo segue até 2032, com ajustes ao longo do caminho. A melhor estratégia para o empresário não é esperar a reforma acontecer para entender seus efeitos. É fazer essa conta agora, enquanto ainda há tempo de corrigir rota.
Fonte: Elvira de Carvalho é advogada tributária e assistente da diretoria da King Contabilidade, Cristiane Almeida é gerente do Departamento Contábil da King Contabilidade e Cida Andrade é gerente do Departamento Fiscal da King Contabilidade.













