A mudança nas regras da jornada de trabalho exige que empresas revisem o planejamento de pessoal, as escalas e os custos operacionais. Com o fim da escala 6x1, o setor de Recursos Humanos (RH) terá de avaliar como redistribuir as horas trabalhadas, manter a cobertura das atividades e dimensionar as equipes de acordo com as novas exigências.
A Emenda Constitucional nº 141/2026, promulgada pelo Congresso Nacional em 16 de outubro, estabelece dois dias de descanso remunerado por semana e reduz gradualmente a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. A transição começa após 60 dias, quando a jornada máxima passa a ser de 42 horas semanais. Depois de mais 12 meses, o limite chega a 40 horas semanais.
Nesse cenário, os dados internos da empresa podem ajudar a identificar quais setores precisarão de mudanças, quantos profissionais serão necessários para manter a operação e como a nova distribuição do trabalho poderá afetar a folha de pagamento.
Como os dados ajudam a reorganizar as equipes?
O primeiro passo é levantar informações sobre a jornada efetivamente praticada pelos funcionários. Registros de ponto, escalas, horas extras, banco de horas, faltas e afastamentos permitem identificar como a empresa distribui o trabalho atualmente e onde estão as maiores necessidades de cobertura.
A análise também deve considerar os horários de maior movimento, a demanda por atendimento e as atividades que precisam funcionar continuamente. No comércio, por exemplo, a organização das equipes pode depender dos períodos de maior fluxo de clientes. Já em operações de logística, segurança e outros serviços contínuos, o planejamento precisa garantir a presença de profissionais nos diferentes turnos.
Com essas informações, o RH pode simular diferentes formatos de escala e verificar como distribuir os dias de trabalho e de descanso sem comprometer as atividades. O objetivo é identificar antecipadamente possíveis lacunas na cobertura e avaliar se será necessário redistribuir tarefas, alterar turnos ou ampliar o quadro de funcionários.
O diagnóstico deve ser feito por setor e função, já que a necessidade de adaptação pode variar dentro da mesma empresa. Uma média geral de horas trabalhadas nem sempre representa a realidade de cada equipe.
Redução da jornada exige revisão dos custos
A reorganização das escalas também tem reflexos financeiros. Para estimar os efeitos da mudança, o RH precisa trabalhar em conjunto com os departamentos financeiro, contábil e operacional, considerando os custos da folha e as necessidades específicas de cada área.
Entre os principais indicadores que podem ser analisados estão:
- Horas extras: quanto a empresa paga atualmente e em quais setores esse custo se concentra;
- Dimensionamento das equipes: quantos profissionais são necessários para manter o funcionamento de cada turno;
- Custo por hora trabalhada: quanto a operação gasta para manter determinada atividade;
- Absenteísmo e afastamentos: como ausências afetam a distribuição das tarefas e a necessidade de substituições;
- Produtividade: quanto é produzido ou atendido em determinado período;
- Necessidade de contratação: quais funções podem exigir reforço para manter o nível de serviço.
Esses dados permitem comparar cenários antes da implementação das novas jornadas. A empresa pode, por exemplo, avaliar os efeitos de uma redistribuição de horários em comparação com a contratação de novos profissionais para cobrir os períodos descobertos.
A mudança, porém, não representa automaticamente o mesmo aumento de custo para todas as empresas. O resultado dependerá da jornada praticada atualmente, da organização dos turnos, das características da atividade e da capacidade de reorganizar o trabalho.
Como calcular o impacto da mudança na folha?
Para construir uma estimativa, o RH pode começar identificando quantos empregados trabalham atualmente acima dos novos limites semanais e quais contratos estão vinculados à escala 6x1.
Em seguida, deve projetar a distribuição da jornada nas etapas de transição, considerando os dias de descanso, a duração dos turnos e as necessidades de cada área. A partir daí, é possível estimar eventuais despesas adicionais com horas extras, contratações, treinamento e reorganização das equipes.
O cálculo precisa considerar também a manutenção dos salários, prevista na emenda constitucional, e as regras aplicáveis a cada categoria profissional. Acordos e convenções coletivas podem ter relevância na organização das jornadas, dentro dos limites estabelecidos pela nova norma.
A comparação entre o cenário atual e as projeções para cada etapa ajuda a empresa a identificar quais ajustes podem ser feitos com a estrutura existente e quais podem exigir recursos adicionais.
Integração entre RH, contabilidade e operação
A adaptação não depende apenas da elaboração de novas escalas. Os dados de jornada precisam ser analisados em conjunto com informações sobre contratos, folha de pagamento, custos e funcionamento das atividades.
Nesse processo, o RH pode organizar os registros de ponto e as escalas, enquanto a contabilidade e o financeiro contribuem com a análise dos encargos e dos impactos orçamentários. As áreas operacionais, por sua vez, ajudam a identificar os horários críticos e as atividades que não podem ficar descobertas.
A integração também facilita a revisão de contratos de prestação de serviços. Empresas que contratam fornecedores com equipes alocadas, por exemplo, podem precisar avaliar como as mudanças na jornada afetam a organização dos postos de trabalho e as condições contratuais.
O planejamento deve acompanhar os prazos de transição e as regras específicas aplicáveis à empresa, incluindo eventuais particularidades previstas na legislação ou em instrumentos coletivos.
Tecnologia pode apoiar o planejamento das jornadas
Sistemas de controle de ponto, gestão de escalas e folha de pagamento podem reunir informações que, quando analisadas separadamente, dificultam a identificação de problemas. Com dados centralizados, o RH consegue comparar a jornada prevista com a efetivamente cumprida e acompanhar indicadores de horas extras, ausências e necessidade de pessoal.
Ferramentas de análise de dados também podem ajudar a simular diferentes distribuições de turnos e estimar seus efeitos sobre os custos. A automação pode reduzir tarefas operacionais e facilitar o acompanhamento dos prazos, desde que os sistemas estejam configurados de acordo com as regras aplicáveis.
O uso de tecnologia, entretanto, não substitui a avaliação das particularidades de cada equipe nem a verificação das exigências legais. Os resultados das simulações dependem da qualidade das informações utilizadas e precisam ser avaliados pelos responsáveis pelo planejamento.
O que as empresas devem priorizar durante a transição?
Com a mudança na jornada, as empresas precisam mapear a situação atual, estimar os impactos financeiros e preparar a redistribuição das equipes antes da entrada em vigor de cada etapa.
O RH pode começar pela revisão dos registros de jornada e das escalas praticadas, identificar os setores mais dependentes de cobertura contínua e apresentar projeções de custo à direção. A partir desse diagnóstico, será possível comparar alternativas e definir quais mudanças operacionais são necessárias.
A análise periódica dos indicadores também será importante para verificar se as novas escalas estão atendendo às necessidades da operação e se os custos projetados correspondem aos resultados observados.
Com o acompanhamento dos dados e a integração entre RH, contabilidade, financeiro e gestores operacionais, as empresas poderão organizar a adaptação às novas regras com maior previsibilidade, respeitando os limites de jornada e os períodos de descanso previstos na legislação.













