O orçamento das famílias brasileiras está operando no limite máximo em todas as regiões do país neste primeiro semestre de 2026. Um indicador inédito desenvolvido pela Serasa Experian revelou que os cidadãos chegam a empenhar até 80,5% de seus rendimentos mensais para dar conta de despesas básicas e parcelamentos de dívidas.
O levantamento, que cruzou dados de movimentação bancária com cadastros de inadimplência, aponta que o cenário de sufoco financeiro é generalizado, impulsionado pela inflação de itens essenciais e pelo custo do crédito, deixando pouca ou nenhuma margem para poupança ou imprevistos.
Os dados geográficos mostram uma disparidade socioeconômica marcante no território nacional. A região Norte lidera o ranking de vulnerabilidade, registrando o maior comprometimento de renda do país, com a marca de 80,5%.
O Nordeste aparece logo em sequência, com os consumidores gastando, em média, 79,8% de tudo o que ganham para quitar as obrigações do mês. Nessas localidades, o peso dos alimentos e das tarifas públicas consome a maior fatia dos salários.
Na outra ponta da tabela, a região Sul apresentou o menor índice de comprometimento financeiro do estudo, fixado em 71,9%. O Centro-Oeste registrou uma taxa de 74,4%, enquanto o Sudeste ficou em 76,2%.
Apesar de o Sul apresentar uma folga ligeiramente maior em comparação com os estados nortistas, o comitê técnico da Serasa Experian pondera que todos os percentuais apurados no país estão bem acima do patamar considerado saudável pelos educadores financeiros, que recomendam um teto de 30% para gastos com dívidas.
Banco Central e CNC confirmam alerta
O diagnóstico da empresa de análises de crédito converge com os dados macroeconômicos oficiais. Relatórios recentes do Banco Central do Brasil (BC) indicam que o comprometimento da renda voltado especificamente para o serviço da dívida (pagamento de juros e amortizações) flerta com os maiores níveis da série histórica.
Paralelamente, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), reforça o sinal de alerta ao apontar que mais de 80% das famílias declaram possuir algum tipo de dívida ativa.
Os cartões de crédito, os carnês de lojas e o crédito consignado continuam liderando os fatores de pressão no orçamento. Para os especialistas em contabilidade consultiva, esse cenário exige que as empresas recalculem suas provisões para devedores duvidosos (PDD) e tenham cautela ao conceder novos prazos de pagamento aos clientes varejistas.
A expectativa do mercado é de que as ferramentas de regularização, como as rodadas de negociação de dívidas e a utilização de fundos trabalhistas, possam trazer um alívio temporário para esses percentuais nos próximos meses. No entanto, a recomposição real do poder de compra ainda depende diretamente da estabilização dos preços de consumo em longo prazo.
Janela de alívio com o Desenrola 2.0
É justamente nesse cenário de corda bamba financeira que a nova fase do programa Desenrola Brasil ganha relevância estratégica para os consumidores. A possibilidade de utilizar o saldo do FGTS para amortizar ou liquidar dívidas de até R$ 15 mil surge como uma das principais ferramentas para tentar reduzir as taxas de comprometimento apuradas no estudo.
A expectativa de especialistas em finanças é que, ao trocar juros abusivos de cartões de crédito e cheques especiais pelo uso de um recurso que estava retido no fundo de garantia, o trabalhador consiga liberar fôlego em sua renda mensal líquida já para os próximos meses.













