A inflação brasileira ultrapassou um limite importante em setembro. Com alta de 0,82%, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) reverteu a deflação registrada em agosto e levou a taxa acumulada em 12 meses a 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta. No ano, o indicador já soma 3,95% em nove meses, aproximando-se do limite de tolerância antes mesmo do encerramento do exercício. Quatro dias depois, o boletim Focus elevou, pela quarta semana consecutiva, a projeção de inflação para 2026, de 5,01% para 5,22%. Na outra ponta, porém, o mercado passou a estimar juros menores: a previsão para a taxa Selic no fim do ano recuou de 13,5% para 13,25%, revelando uma combinação que, à primeira vista, parece contraditória.
O principal fator de pressão em setembro foi a energia elétrica residencial, cujos preços avançaram 7,98% com o fim do Bônus de Itaipu, contribuindo com 0,32 ponto porcentual (p.p.) para o resultado do IPCA. As passagens aéreas, com alta de 9,66%, os combustíveis, que subiram 1,41%, e alimentos in natura, como tomate e batata, também pressionaram o índice. Mais preocupante, contudo, é a disseminação dos aumentos. Todos os nove grupos de produtos e serviços e as 16 regiões pesquisadas encareceram. No setor de Serviços, a variação dos preços da refeição fora de casa acelerou de 0,18% para 0,49%. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que acompanha a inflação para famílias de menor renda, também subiu 0,82% e acumula alta de 4,01% no ano. Como serve de referência para o reajuste do salário mínimo e influencia as negociações salariais, essa pressão pode se refletir nos custos com pessoal das empresas em 2027.
A revisão das expectativas para 2026 decorre, sobretudo, da perspectiva de preços administrados mais elevados, refletindo a incorporação do choque de energia às projeções. Para os anos seguintes, o quadro é de relativa estabilidade, mas ainda distante do objetivo central da política monetária — a inflação esperada para o ano que vem permaneceu em 4,3%, enquanto a estimativa para 2028 recuou para 3,79%. Ambas continuam acima do centro da meta (3%), sinalizando que o mercado não espera uma convergência rápida da inflação ao objetivo perseguido pelo Banco Central (BC).
A redução da Selic projetada para o fim do ano, acompanhada da expectativa de cortes de 0,25 p.p. em novembro e dezembro, reflete também a primeira pesquisa realizada após o primeiro turno das eleições. O mercado passou a atribuir mais probabilidade à adoção de medidas de ajuste fiscal pelo próximo governo, movimento que contribuiu para reduzir as expectativas para o dólar — agora estimado em R$ 5,15 no encerramento do ano — e os juros futuros. Essa leitura, entretanto, depende de uma sinalização concreta da política econômica. Por enquanto, trata-se de uma aposta dos agentes financeiros, e não de um plano fiscal definido. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, e seus desdobramentos podem alterar as expectativas.
Desse quadro, é possível delinear três trajetórias para a economia. No central, alinhado com as projeções do Focus, a inflação encerra 2026 acima do teto da meta, desacelera gradualmente em 2027 e a Selic termina o próximo ano em 12%. No cenário adverso, uma sinalização fiscal insuficiente provoca nova desvalorização cambial, enquanto a inflação de serviços permanece elevada. Neste caso, a inflação acumulada em 12 meses continuaria acima do limite de tolerância, exigindo que o BC explicasse formalmente o descumprimento da meta. O Comitê de Política Monetária (Copom), por sua vez, poderia interromper o ciclo de cortes, mantendo os juros reais próximos de 9%. Já no quadro benigno, a adoção de uma regra de gastos crível nos primeiros cem dias do novo governo reduziria o prêmio de risco, favoreceria a valorização do real e reforçaria a desinflação dos bens. Esse ambiente abriria espaço para uma Selic entre 11% e 11,5% ao fim de 2027. Mesmo nessa hipótese, porém, a resistência dos preços dos serviços continuaria limitando a queda dos juros.
Para os setores de Comércio e Serviços, as três trajetórias apontam para um ambiente ainda restritivo no início do ano que vem, com juros reais superiores a 7%, crédito caro e consumo das famílias sem força suficiente para sustentar uma expansão sólida. Pelo lado dos custos, a inflação captada pelo INPC pressiona os salários justamente nos segmentos mais intensivos em mão de obra, comprimindo as margens das empresas. A ultrapassagem do teto da meta, de maneira isolada, não representa necessariamente o maior risco, sobretudo porque o efeito direto do choque tarifário de energia tende a sair da comparação anual a partir de outubro. A tarefa central está em conter a inflação dos serviços sem comprometer a atividade econômica, enquanto o País aguarda definições sobre a política fiscal. Mais do que o próximo resultado do IPCA, será a credibilidade desse ajuste que ajudará a determinar se a Selic terminará 2027 próxima de 11% ou permanecerá em patamar mais elevado, perto de 14%.












